Você já reparou que a gente não deixa a criança chorar? Já reparou que quando o recém-nascido chora, nós fazemos de tudo para calar a boca dele. Fazemos uma série de "cara feia" para ver se a gente cala a criança, para tentar espantar a fragilidade.
Nós, humanos, temos uma dificuldade imensa de lidar com a fragilidade do outro – ainda que seja filho da gente. Nós gostamos é de todo mundo feliz. Não estamos preparados para encarar a fragilidade. Parece que a nossa educação está sempre voltada para nos revestir de uma coragem que nos faz esquecer o limite.
Ter coragem é descobrir onde está a nossa fragilidade e ali trabalhar com um empenho um pouquinho maior. É não desconsiderar o que temos de bom, mas é também colocar atenção naquilo que ainda temos que melhorar. Estamos em processo de feitura. Não estou pronto, eu não sou perfeito, estou por ser feito, estou sendo feito aos poucos. E no processo de ser feito aos poucos eu vou descobrindo onde é que dói este espinho. Este espinho muda de lugar. Quanto mais uma pessoa está aperfeiçoada no processo de ser gente, maior é a facilidade de conhecer limites.
Para você retirar um espinho, às vezes, é preciso deixar inflamar. É como se o seu corpo dissesse: “Isso não me pertence”. De qualquer jeito, nós temos que tirar aquilo que não nos pertence. Tem algumas inflamações do espírito, da personalidade que tem gente que é tão aborrecida que a gente não pode nem encostar. São aquelas inflamações que se alastram.
E aí é que entra a grande contribuição do Cristianismo, numa proposta antropológica. Porque Deus não quer que você seja um anjinho na terra, mas que você deixe de ser inflamado. Ele quer te mostrar as inflamações para que você lute.
Cara feia, arrogâncias, isso é complexo de inferioridade. Sabe qual é o espinho? O medo, a insegurança.
Você já fez a experiência de viver uma palavra que te fez vazar em tudo o que estava estragado? Língua afiada quer dizer: deixar toda a inflamação que está dentro de nós vir para fora.
Ter condições de vazar aquilo que antes a gente desconhecia é admitir e reconhecer que somos frágeis. A pior ignorância é aquela que finge que sabe! Temos medo de mostrar que não aprendemos, que somos frágeis. Quantas vezes na nossa vida, por medo, perdemos a oportunidade de aprender.
Às vezes, por medo de expor a nossa fragilidade, porque parece que o mundo de hoje se esqueceu de mostrar a cultura do esforço que se fez para chegar aonde chegamos, perdemos o direito de chorar. E muitas vezes choramos e não sabemos o porquê estamos chorando.
O ensinamento de Jesus é sempre o avesso do avesso. Quer ser santo? Assuma que você é fraco. Muitas vezes, neste processo de se conhecer, a gente sangra. E nós precisamos sangrar. Um dos maiores poetas da música diz isso.
Quantas vezes você não se viu traduzido em uma canção de alguém que teve a coragem de sangrar, não teve medo de mostrar as próprias fragilidades.
Nós somos todos iguais. Nós, padres, somos todos iguais. Não adianta a gente fingir que é forte, ou ficar fingindo que não sente e que não tem medo. Eu não sei se você tem mais de cinco pessoas que conhecem os seus segredos. Para quantas pessoas você teve coragem de sangrar? Pessoas que te enxergam por dentro são raras.
Conversão é isso. É você educar o seu filho para ele poder te contar onde estão os espinhos. O espinho não é o defeito, mas é a seta que nos mostra onde temos que trabalhar para ser melhor.
A vida vai perdendo a graça porque não nos deixamos sangrar. A gente sangra melhor nos momentos de intimidade, onde a gente tem coragem de tirar a couraça. É muito melhor a gente admitir que tem medo. Para as pessoas ,é sempre doloroso ter que tirar os espinhos, de ver vazar as inflamações.
Há tantas situações que nos deixam com o “coração na boca”. Às vezes, nós colocamos muito mais atenção naquilo que as pessoas estão achando de nós, do que no que nós pensamos de nós mesmos.
Examine-se, você é uma pessoa que consegue levar o outro à cura. Em última instância, o que vai sobrar de nós é a nossa vontade de amar. Vamos descobrir o que hoje em nós está "infeccionado", porque é preciso sangrar, é preciso reconhecer-se frágil.
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A lógica é simples. Não há conflito naquele que está no lugar certo, fazendo o que deveria. É regra da vida que não passa pela força do argumento, nem tampouco no aprendizado dos livros. É força natural que conduz o caule, ordenando e determinando que a rosa realize o giro, toda vez que mudar a direção do Regente.
Estão mergulhados numa forma de saber milenar, regra que a criação fez questão de deixar na memória da espécie. Eles não podem sobreviver sem a força que os ilumina. Por isso, estão entregues aos intermitentes e místicos movimentos de procura. Eles giram e querem o sol. Eles são girassóis.
Deles me aproximo. Penso no meu destino de ser humano. Penso no quanto eu também sou necessitado de voltar-me para uma força regente, absoluta, determinante. Preciso de Deus. Se para Ele não me volto corro o risco de me desprender de minha possibilidade de ser feliz. É Nele que meu sentido está todo contido. Ele resguarda o infinito de tudo o que ainda posso ser. Descubro maravilhado. Mas no finito que me envolve posso descobrir o desafio de antecipar no tempo, o que Nele já está realizado.
Então intuo. Deus me dá aos poucos, em partes, dia a dia, em fragmentos.
Eu Dele me recebo, assim como o girassol se recebe do sol, porque não pode sobreviver sem sua luz. A flor condensa, ainda que de forma limitada, porque é criatura, o todo de sua natureza que o sol potencializa.
O mesmo é comigo. O mesmo é com você. Deus é nosso sol, e nós não poderíamos chegar a ser quem somos, em essência, se Nele não colocarmos a direção dos nossos olhos.
Cada vez que o nosso olhar se desvia de sua regência, incorremos no risco de fazer ser o nosso sol, o que na verdade não passa de luz artificial.
Substituição desastrosa que chamamos de idolatria. Uma força humana colocada no lugar de Deus.
A vida é o lugar da Revelação divina. É na força da história que descobrimos os rastros do Sagrado. Não há nenhum problema em descobrir nas realidades humanas algumas escadarias que possam nos ajudar a chegar ao céu. Mas não podemos pensar que a escadaria é o lugar definitivo de nossa busca. Parar os nossos olhos no humano que nos fala sobre Deus é o mesmo que distribuir fragmentos de pólvora pelos cômodos de nossa morada. Um risco que não podemos correr.
Tudo o que é humano é frágil, temporário, limitado. Não é ele que pode nos salvar. Ele é apenas um condutor. É depois dele que podemos encontrar o que verdadeiramente importa. Ele, o fundamento de tudo o que nos faz ser o que somos. Ele, o Criador de toda realidade. Deus trino, onipotente, fonte de toda luz.
Sejamos como os girassóis...
Uma coisa é certa. Nós estamos todos num mesmo campo. Há em cada um de nós uma essência que nos orienta para o verdadeiro lugar que precisamos chegar, mas nem sempre realizamos o movimento da procura pela luz.
Sejamos afeitos a este movimento místico, natural. Não prenda os seus olhos no oposto de sua felicidade. Não queira o engano dos artifícios que insistem em distrair a nossa percepção. Não podemos substituir o essencial pelo acidental. É a nossa realização que está em jogo.
Girassol só pode ser feliz se para o Sol estiver orientado. É por isso que eles não perdem tempo com as sombras.
Eles já sabem, mas nós precisamos aprender.
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É santo o que os meus olhos enxergam. A cor amarela encontra moldura no azul dos contornos do céu. Ao longe, o verde completa o quadro. Paira sobre a cena um mistério raro, como se houvesse uma névoa a me recordar que a raridade da beleza é uma epfania divina.
O meu desejo é deixar de seguir o caminho que me leva ao meu destino. Impossibilitado da parada, ouso diminuir a marcha. Quero a cena dentro de mim. Ouso rezar a Deus que me permita registrar na memória a beleza que não posso aprisionar.
Olho para os que passam. A velocidade dos carros não permite que os seus ocupantes vejam o que vejo. Eles estão privados da mística que só pode ser compreendida quando os passos perdem a pressa. Estão ocupados demais com suas urgências práticas. É preciso chegar. Há muitas iniciativas a serem tomadas e o tempo não pode ser perdido.
Enquanto isso, o ipê se ocupa de sua florada amarela. Cumpre no tempo a proeza de ser um sentido oculto e deslumbrante para os distraídos que o percebem.
Nele há uma pequena parte da beleza do mundo que tive a graça de descobrir. E só por isso diminuí o ritmo da minha vida.
Olhei com calma para sua beleza e nele percebi o sorriso do Criador. Sorriso de Pai, que vez em quando, faz questão que seus filhos diminuam suas velocidades para uma breve brincadeira redentora.
Eu aceitei. Brinquei com Ele. Fiquei mais feliz!
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Ando pensando sobre as malas que levamos...
Elas são expressões dos nossos medos. Elas representam nossas inseguranças. Olho para o viajante com suas imensas bagagens e fico curioso para saber o que há dentro das estruturas etiquetadas. Tudo o que ele leva está diretamente ligado ao medo de necessitar. Roupas diversas; de frio, de calor – o clima pode mudar a qualquer momento! – remédios, segredos, livros, chinelos, guarda chuva – e se chover? –, cremes, sabonetes, ferro elétrico – isso mesmo! – Microondas? – Comunique-me, por favor, se alguém já ousou levar.
O fato é que elas representam nossas inseguranças. Digo por mim. Sempre que saio de casa levo comigo a pretensão de deslocar o meu mundo. Tenho medo do que vou enfrentar. Quero fazer caber no pequeno espaço a totalidade dos meus significados. As justificativas são racionais. Correspondem às regras do bom senso, preocupações naturais para quem não gosta de viver privações.
Nós nos justificamos. Posso precisar disso, posso precisar daquilo...
Olho ao meu redor e descubro que as coisas que quero levar não podem ser levadas. Excedem aos tamanhos permitidos. Já imaginou chegar ao aeroporto carregando o colchão para ser despachado?
As perguntas são muitas... E se eu tiver vontade de ouvir aquela música? E o filme que costumo ver de vez em quando, como se fosse a primeira vez?
Desisto. Jogo o que posso no espaço delimitado para minha partida e vou. Vez em quando me recordo de alguma coisa esquecida, ou então, inevitavelmente concluo que mais da metade do que levei não me serviu pra nada.
É nessa hora que descubro que partir é experiência inevitável de sofrer ausências. E nisso mora o encanto da viagem. Viajar é descobrir o mundo que não temos. É o tempo de sofrer a ausência que nos ajuda a mensurar o valor do mundo que nos pertence.
E então descobrimos o motivo que levou o poeta cantar: “Bom é partir. Bom mesmo é poder voltar!” Ele tinha razão. A partida nos abre os olhos para o que deixamos. A distância nos permite mensurar os espaços deixados. Por isso, partidas e chegadas são instrumentos que nos indicam quem somos, o que amamos e o que é essencial para que a gente continue sendo. Ao ver o mundo que não é meu eu me reencontro com desejo de amar ainda mais o meu território. É conseqüência natural que faz o coração querer voltar ao ponto inicial, ao lugar onde tudo começou.
É como se a voz identificasse a raiz do grito, o elemento primeiro.
Vida e viagens seguem as mesmas regras. Os excessos nos pesam e nos retiram a vontade de viver. Por isso é tão necessário partir. Sair na direção das realidades que nos ausentam. Lugares e pessoas que não pertencem ao contexto de nossas lamúrias... Hospitais, asilos, internatos...
Ver o sofrimento de perto, tocar na ferida que não dói na nossa carne, mas que de alguma maneira pode nos humanizar.
Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve muita coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles não lhe permitirão encontrar o outro. Viaje leve, leve, bem leve. Mas se leve.
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Eu não tenho dúvida que é porque Ele era portador de uma palavra capaz de deter o medo. Você sente medo de ser só, de ser traído, de ser injustiçado, medo de doença, medo de morrer. O medo é universal.
A presença de Deus na história ofereceu a humanidade um braço que pudesse nos sustentar no momento do medo e nos dar um alento.
E isso você experimenta na sua carne, na sua alma. E precisa gritar por alguém, porque não dá conta sozinho.
Jesus quando passava pelo povo, despertava isso. Aqueles que passavam por Jesus eram aliviados. “Vinde a mim todos vos que estais cansados e eu vos aliviarei”.
Jesus tinha o poder de fazer a pessoa se encorajar para a vida.
O medo começa a diminuir quando somos olhados nos olhos.
A psicologia nos ensina quando somos olhados do jeito certo cresce em nós a crença em nós mesmos.
O olhar é o lugar da nossa segurança. Se no medo não temos ao nosso lado quem nos ama, ou a quem olharmos, tudo se torna difícil.
Isso que fascinava em Jesus. Não era apenas a força de um argumento, de uma pregação. Mas pela força de um olhar Ele penetrava na pessoa e vivia o mesmo tempo que ela. Amar é viver o tempo do outro.
Minha mãe está idosa, velhinha, lenta. Está num tempo diferente. Eu ando depressa. Minha mãe não. Às vezes eu preciso olhar para trás para ver onde ela está.
A gente diminui o medo quando entramos no tempo do outro.
Você está devagar e com medo. Alguém segura na sua mão e diz: “Não se preocupe, estarei ao seu lado.” E você fala: “Mas você não tem que ir?” E ouve: “Tenho que ir, mas decidi ficar com você”. Essa pessoa aceitou sua lentidão e não dispensou você.
Na correria ninguém vai encontrar o outro. Ninguém vai livrar-se dos medos.
Jesus quando passava transformava o tempo das pessoas.
Fico pensando no medo de Madalena. Passou a vida inteira sendo usada, um objeto. Como ela se enxergava? Pare para entrar no tempo da prostituta. Entre no tempo dela e pensa nos muitos medos que ela devia ter. Quantas doenças físicas ela devia trazer no corpo. Quantas doenças trazia na alma e no coração?
E Jesus olha pra ela, e a coloca em outro tempo, desacelerando o processo dos medos. Olhando pra ela um jeito novo.
Quando me deparo com meus limites e às vezes não consigo mudá-los, posso olhar pra eles de forma diferente.
Quantos de nós tem medo de mudança? Muitas vezes porque não sabemos encarar as mudanças. Mas se nesses momentos tem alguém junto com você, o medo diminui.
Uma cena marcou meu coração: Quando meu amigo Robinho começou a fazer a quimioterapia.
Ele era vaidoso e bonito. E nesse processo da quimio, a primeira coisa que fazem é raspar a cabeça do paciente. Talvez para diminuir o medo, quem sabe pra tentar aliviar a dor.
Antes dele ficar careca, seu irmão Denilson raspou a cabeça. O que ele queria? O que pode uma cabeça raspada fazer no coração do outro? Ele entrou no mesmo tempo. Demonstrando que estava com ele. Que o amava.
Foi alguém que abriu mão do que é seu e pela força do amor que os unia se decidiu viver o tempo do outro.
Como quando você tem uma festa pra ir e sua mãe está doente em casa e você decide ficar. Talvez estejamos perdendo isso, pois o tempo moderno está nos deixando mais egoístas, mais centrados em nós mesmos. Quanto seus pais entraram no seu tempo? E agora, quanto você entra no tempo deles?
Uma vez tive como superior, o padre Herculano. Ele me apresentou Jesus assim. Como aquele que entra no meu tempo e olha minhas misérias, mesmo sendo santo.
Chorar na frente de quem nos ama, é choro de ressurreição.
Agradeço a Deus porque um dia me colocou num corredor escuro com um padre moderno demais, eu achava. Eu o olhava com desconfiança. O achava esquisito. O dia que eu descobri o coração daquele homem, percebi que ele tinha o coração como o de Jesus.
Descobri que ele tinha pecados como eu, mas não desistia de sua salvação. Olhava para os drogados e não se sentia melhor, superior, mas vivia o tempo deles.
O tempo do padre Léo era litúrgico.
Quantas vezes pôs a mão na minha cabeça e me deitou em seu colo e diminuiu o meu medo? Da mesma forma que Jesus diminuiu o medo de quem O encontrava.
A Palavra de Jesus nos liberta, abre nossos cativeiros. Por isso precismos correr atrás d'Ele, nos revestir de mística, ter contato com a oração, com a música que fala d'Ele, com a celebração Eucarística.
Quantas vezes na minha vida tive a oportunidade de experimentar Jesus concretamente nas palavras do Padre Léo. Quantas vezes nosso medo vai embora quando alguém nos faz olhar de outra forma e nos mostra uma saída possível na 'casa' de nossos medos?
Deus para mim não é fuga. Estou tocado pela força de um Deus que me renova e me tira do medo cada vez que me recordo do que Ele falou e fez. Se Ele fez naquele tempo, Ele faz hoje também. Ele age mesmo que não mereçamos.
Se você não se sente merecedor, é um bom passo. Jesus tem predileção pelos miseráveis e faz deles sinal de contradição para as nações. Não tenha medo! Deus quer agir em todos nós, quer nos transformar. A gente não alcança a graça se não vence a cadeia do medo. Para quê cultivar os fracassos? Para legitimar a presença do diabo? Não! Foi para cima que você foi projetado. Para o alto, para o céu!
Quando a gente vai fazer uma construção, o arquiteto faz um projeto maravilhoso. E aí nós olhamos e queremos tirar uma pilastra, ter um telhado mais pobrezinho, simplificar o piso.
Tem gente que leva a santidade do mesmo jeito. Querendo fazer “meia-água”. Deus quer 'mansão' na sua santidade!
Não economize no seu processo humano! Não é qualquer coisa o que Deus projetou pra você. Seus limites não podem ser impedimento para você chegar ao final dessa construção.
A humildade precisa nos fazer pequenos, mas o que Deus nos propõe é grande!
A Canção Nova não foi construída para trazer santos. Mas pra trazer gente que aceitou o desafio de viver o processo de crescimento espiritual e de santidade. E é lá na sua vida, no seu dia a dia que isso precisa ser praticado.
Nós não nascemos para o fracasso. Ser feliz é urgente.
Olha para o projeto inicial. O momento que Deus colocou nas suas mãos o projeto que Ele quer que você seja. Na preguiça você não chega lá. É preciso empenho! Não simplifique o projeto, peça para Deus força para chegar até lá.
Não tenha medo do processo e do projeto inicial. Corra atrás daquilo que é santo e honesto e você vai purificar sua vida e seu coração aos poucos. A gente vence dando passos.
Quantas vezes precisamos do tombo para voltar ao nosso lugar? Quantas vezes usamos das futilidades da vida? Isso não agrega nada em nós! Não nos faz avançar em nada no processo.
Religião não é um conjunto de regras, mas é o olhar de Deus fixo em nós, nos oferecendo a vitória. Pra gente chegar a ela basta ter coragem de se erguer, olhar nos olhos daquele que nos ama, desse Jesus que amou a tantos, e passa pela sua vida mais uma vez ou pela primeira, para te convencer que muita coisa precisa ser buscada e que você não precisa ser refém dos medos. E que hoje você pode se transformar numa pessoa nova pela força do olhar de Cristo que nos diz que tudo podemos n'Ele que nos fortalece. Que nós tudo podemos se nossos olhos estiverem fitos n'Ele.
A fraqueza se transforma em força assim. Coloque os seus olhos nos olhos de Jesus.
Quando a fé que eu tenho em Deus se revela em mim, eu tudo posso. Mesmo quando tudo parece nublado e o coração só chora.
Esse processo é lento mas ele chega! Não vamos desistir!
Peça para que Deus lhe dê coragem! Peça o Espirito Santo!
( Pe. Fábio de Melo - Transcrição e adaptação: Nara Bessa )

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O desejo incontido de ver as estradas se transformando, aos poucos, em chegadas rebordadas de alegrias.
Ir; um ir sem tréguas, senão as poucas pausas dos descansos virtuosos que nos devolvem a nós mesmos. Idas que não findam e que não esgotam os destinos a serem desbravados. Passagens; páscoas e deslocamentos.
Eu vou. Vou sempre porque não sei ficar. Vou na mesma mística que envolveu os meus pais na fé, os antepassados que viram antes de mim. Vou envolvido pela morfologia da esperança; este lugar simples, prometido por Deus, e que os escritores sagrados chamam de Terra Prometida. Eu quero.
O lugar sugere saciedade e descanso. Sugere ausência de correntes e cativeiros...
Ainda que o caminho seja longo, dele não desisto. Insisto na visão antecipada de seus vislumbres para que o mar não me assuste na hora da travessia.
Aquele que sabe antecipar o sabor da vitória, pela força de seu muito querer, certamente terá mais facilidade de enfrentar o momento da luta.
O povo marchava nutrido pela promessa. A terra seria linda. Nela não haveria escravidão. Poderiam desembrulhar as suas cítaras; poderiam cantar os seus cantos; poderiam declamar os seus poemas. A terra prometida seria o lugar da liberdade...
Mas antes dela, o processo. Deus não poderia contradizer a ordem da vida.
Uma flor só chega a ser flor depois que viveu o duro processo de morrer para suas antigas condições.
O novo nasce é da morte. Caso contrário Deus estaria privando o seu povo de aprender a beleza do significado da páscoa.
Nenhuma passagem pode ser sem esforço.
É no muito penar que alcançamos o outro lado do rio; o outro lado do mar...
E assim o foi. O desatino das inseguranças não fez barreira às esperanças de quem ia. O mar vermelho não foi capaz de amedrontar os desejantes da Terra, os filhos da promessa.
Pés enxutos e corações molhados, homens e mulheres deitaram suas trouxas no chão; choraram o doce choro da vitória, e construíram de forma bela e convincente o significado do que hoje também celebramos.
A vida cresceu generosa. O significado também. Ainda hoje somos homens e mulheres de passagens; somos filhos da Páscoa.
Os mares existem; os cativeiros também. As ameaças são inúmeras. Mas haverá sempre uma esperança a nos dominar; um sentido oculto que não nos deixa parar; uma terra prometida que nos motiva dizer: Eu não vou desistir!
E assim seguimos. Juntos. Mesmo que não estejamos na mira dos olhos.
O importante é saber, que em algum lugar deste grande mar de ameaças, de alguma forma estamos em travessia...
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Pai costuma ser mal compreendido quando põe limite. E às vezes tem medo dos filhos. Quando o filho compreende que o limite é para sua felicidade, lhe gera alegria.
Cada vez que você se irritar com o ‘sinal fechado’, se lembre que alguém está alegre por encontrar um sinal verde. Precisamos ser criativos. A raiva limita a nossa imaginação. Somos egocêntricos. Somos ligados as nossas necessidades e limites.
O artista é o ser humano que mais condensa defeitos no mundo. Temos limites demais porque temos mil e uma possibilidades. Ele consegue ver o mundo com mais amplitude.
O artista é aquele que consegue retirar o mais simples de todos acontecimentos e revestir de poesia, como ainda não tínhamos possibilidade de fazer. Ele tem o poder de retirar do dia comum, aquilo que a gente não viu. Uma sensibilidade que faz diferença na vida.
Outro dia estava ouvindo Adélia Prado que dizia assim: 'o poeta, o artista é aquele que consegue retirar a vida da mira do tempo'. O poema é uma forma de resgatar aquilo que não morre mais.
Conheça a fragilidade dos grandes artistas.
Você deve conhecer muito compositor católico que mudou a vida de muita gente, mas você olha a vida dele e vê o sofrimento. Mas você não pode negar a obra que Deus faz na sua obra. Onde está o nosso trabalho? Cuidar desse limites que está em nós para que eles não atropelem a arte de Deus que está em nós.
É se colocar na necessidade dos retoques diários. Se tenho mais limites, mais cuidados preciso ter. É o aperfeiçoamento da arte que há em você.
Quanto maior a qualidade da sua arte, maiores os defeitos que lhe acompanharão.
No momento em que escrevemos, quantos rascunhos se faz? Quanto mais rascunhos, melhor a qualidade da arte. Mas a experiência do rascunho, do limite, gera o aprimoramento.
Precisamos de "pontes" que nos dê segurança. Senão ninguém atravessa. O artista tem que se prestar a viver o ofício de ser ponte. Nós estabelecemos a ponte, o vínculo. Padre tem que viver uma sensibilização artística o tempo todo. Nem precisa escrever música ou poesia. É a capacidade de estabelecer simpatia.
Olha para o Calvário. Se esta cena não fosse descrita com olhos de poeta, não gostaríamos do que vimos. Olhe para aqueles que se encantaram com a beleza de Jesus. Descobriram na Palavra de Jesus um jeito de sanar suas fragilidades e limites.
Confiar na providência é você ter consciência do seu limite. Não chove maná na casa de ninguém. Não vai trabalhar não para você ver. A Canção Nova vive da providência, mas venha ver os bastidores. Estão todos dando o sangue naquilo que podem.
Quanto maior o limite de uma pessoa, maior o número de "assessores" que ela precisa. Nossos limites serão mais bem vividos, a partir do momento que tivermos ao nosso lado pessoas que nos amam. Quanto maior a responsabilidade que você tem, mais a necessidade de gente para pensar com a gente!
Meu maior limite é com fotografia. Parece que cada foto arranca minha alma. Quando eu sou colocado numa situação que coloca meu limite para fora, eu não gosto. Porque gosto de dar o meu melhor.
Quando alguém fala um desaforo para gente, esbarra na nossa ferida. Muitas vezes não gostamos de esbarrar em nossos limites, mas precisamos tocá-los.
A morte de Jesus decepcionou os discípulos. Porque eles não haviam entendido. Voltam à antiga vida, porque perderam a "assessoria" que tinham.
Para o artista cristão, o assessor principal é Cristo! Ele que te dá condição de você exercer a arte que você exerce. É a voz Dele que você precisa ouvir, é o exemplo dele que você precisa seguir.
Você experimenta a solidão na sua vida e lamenta a falta de pessoas. Quantas vezes você se perde em você mesmo porque não tem alguém ao seu lado para lhe dizer "faça assim", "vá por esse caminho". E o que você mais precisaria, era alguém que olhasse nos seus olhos e lhe ajudasse a tomar a decisão certa.
Se você tem muito mais limites, suas lutas serão maiores também. Os vícios entram na vida do artista quando ele não sabe lidar com os limites que tem. Uma boa música com certeza foi criada quando o artista não sabia dizer a dor que sentia. Se não nascem nas dores, elas não tocam ninguém. Mas quando você não sabe o que fazer com aquela dor, a melodia vem, a música vem.
Artista que não quer sofrer, vai ser um artista infértil.
Os defeitos que você tem, estão aí para lhe construir! Não faça uma interpretação negativa dos seus limites. Não os negue. Na hora que você precisar, além de clamar pelos amigos, clame ainda mais pelo Senhor de sua arte!
Artista que não reza, jamais será "ponte" para algum lugar. É Jesus quem socorre nossos limites, e dá sentido. Precisamos da "ponte" que Ele nos dá. E aquilo que Ele nos oferece é o que aprendemos a oferecer também.
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Seguir leve é desafio. Há paradas que nos motivam compras, suplementos que julgamos precisar num tempo que ainda não nos pertence, e que nem sabemos se o teremos.
Temos a pretensão de preparar o futuro. Eu tenho. Talvez você tenha também. É bom que a gente se ocupe de coisas futuras, mas tenho receio que a ocupação seja demasiada. Temo que na honesta tentativa de me projetar, eu me esqueça de ficar no hoje da vida.
Os pesos nascem desta articulação. Coisas do passado, do presente e do futuro. Tudo num tempo só.
Há uma cena que me ensina sobre tudo isso. Vejo o menino e sua pipa que não sobe ao céu. Eu o observo de longe. Ele faz de tudo. Mexe na estrutura, diminui o tamanho da rabiola, e nada. O pequeno recorte de papel colorido, preso na estrutura de alguns feixes de bambú retorcidos se recusa a conhecer as alturas.
O menino se empenha. Sabe muito bem que uma pipa só tem sentido se for feita para voar. Ele acredita no que ouviu. Alguém o ensinou o que é uma pipa, e para que serve. Ele acredita no que viu. Alguém já empinou uma pipa ao seu lado. O que ele agora precisa é repetir o gesto. Ele tenta, mas a pipa está momentaneamente impossibilitada de cumprir a função que possui.
Sem desistir do projeto, o menino continua o seu empenho. Busca soluções. Olha para os amigos que estão ao lado e pede ajuda. Aos poucos eles se juntam e realizam gestos de intervenção...
Por fim, ele tenta mais uma vez. O milagre acontece. Obedecendo ao destino dos ventos, a pipa vai se desprendendo das mãos do menino. A linha que até então estava solta vai se esticando. O que antes estava preso ao chão, aos poucos, bem aos poucos, vai ganhando a imensidão do céu.
O rosto do menino se desprende no mesmo momento em que a pipa inicia a sua subida. O sorriso nasceu, floresceu leve, sem querer futuro, sem querer passado. Sorriso de querer só o presente. As linhas nas mãos. A pipa no céu...
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Meu ofício é breve, muito breve, quase nada diante da história da Igreja que anuncia o Cristo a quem amo. Meu ofício é controverso. Eu não sepultei algumas de minhas vaidades para ser o que sou. Eu ainda continuo acreditando que a pior de todas as vaidades é a vaidade de não ter vaidades. É a raíz torta que gera a repulsa pelo mais fraco, pelo diferente, pelo que considero pior que eu. Esta eu não quero. Nariz empinado que não permite olhar para o lado. Recuso.
Meu ofício está na vitrine. Atiram pedra os que querem. Banalizam como podem. Manchetes imensas noticiando coisas pequenas, desnecessárias. Preferem evidenciar alguns detalhes de minha condição humana.
Padre galã... Frequenta academia? Já fez plástica? Lipoaspiração? É a favor da camisinha? Tem amigos homossexuais? As perguntas não dizem respeito ao que quero anunciar.
Meu ofício. Eu sou da Igreja. Não criei uma seita à minha imagem e semelhança. Sou padre católico, apostólico, romano, vivendo no Brasil. Minha tentativa é acertar o alvo da misericórdia. Desejo de mostrar que o Evangelho é para nos tornar melhores. Gestando fraternidade, tolerância com os diferentes, abraço carinhoso que nos recorda que precisamos uns dos outros, mesmo que não tenhamos as mesmas convicções religiosas. Evangelho como proposta de aproximação, ponte com a casa do vizinho, para que a gente possa trocar medidas de café, colheres de açúcar, sorrisos ofertados enquanto lavamos a calçada em dias de sol escaldante.
Meu ofício. Minha sina de ser vitimado pela reportagem qualquer, feita pelo repórter que não sabe absolutamente nada a meu respeito, e que na responsabilidade de dizer, disse qualquer palavra...
O jornal de hoje embrulhará o peixe de amanhã. Pronto. Só assim a gente consegue voltar a dormir. Um consolo me vem do céu. Meu ofício não termina no peixe enrolado. Ele não é notícia para ser esquecida. Meu ofício tem o seu fundamento no altar da Eucaristia, lá onde a memória de Jesus é celebrada. Lá onde o canceroso aprende a morrer e o sentido da saudade é ensinado. Gente que vai, gente que fica...
Meu ofício. Mão sobre a testa traça o santo sinal da cruz. O pecado perdoado nos recorda o poder terapêutico da palavra. Deus não desiste de nós. É tão lindo pensar assim. Melhor ainda é sentir. Eu imagino. Por trás da fórmula sacramental há sempre uma tentativa de dizer - "Meu filho, volte a se amar! A cama está pronta. Sua mãe deixou tudo do jeito que você prefere. Por que dormir na sarjeta?"
Meu ofício. Eu, padre! Só isso. Querendo o direito de cuidar das minhas olheiras sem que isso pareça um crime. Querendo cantar a palavra de Jesus com a mesma qualidade com que cantam os românticos do mundo suas desilusões desamorosas. Eu, padre. Filho da Canção Nova, filho das Paulinas, filho dos padres do Coração de Jesus...
Meu ofício. Minha oração rezada nas atitudes concretas de minha humanidade. Minha missa silenciosa, sem alardes, sem fotografias. Meus encontros. Sorrisos que me tocam. Pessoas envelhecidas que me devolvem juventude. Olhares que me transformam. Cartas que relatam a visita que receberam de Deus, pela força de meu ofício. Moço que me conta entre lágrimas que deixou as drogas depois de ter lido um livro que escrevi. Evangélica que me escreve emails dando conselhos que acolho como direção espiritual. Amor, zelo que chega pelos caminhos inusitados da virtualidade. Criança que fica com os olhinhos brilhando porque viram o padre da propaganda que aparece na TV. Time de futebol composto por um grupo de rapazes nada convencionais, e que o canal de TV especializado em esportes anuncia - Filho do céu. O reporter perguntou a razão do nome. A resposta veio direta - Por causa de um padre que a gente gosta!
Por tudo isso e muito mais, eu não desisto. É meu ofício.
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O interessante é que a matriz de tudo é o "ser". É nele que a vida brota como fonte original. O ser confuso, precário, esboço imperfeito de uma perfeição querida, desejada, amada.
Vez em quando, eu me vejo no que os outros dizem e acham sobre mim. Uma manchete de jornal, um comentário na internet, ou até mesmo um email que chega com o poder de confidenciar impressões. É interessante. Tudo é mecanismo de descoberta. Para afirmar o que sou, mas também para confirmar o que não sou.
Há coisas que leio sobre mim que iluminam ainda mais as minhas opções, sobretudo quando dizem o absolutamente contrário do que sei sobre mim mesmo. Reduções simplistas, frases apressadas que são próprias dos dias que vivemos.
O mundo e suas complexidades. As pessoas e suas necessidades de notícias, fatos novos, pessoas que se prestam a ocupar os espaços vazios, metáforas de almas que não buscam transcendências, mas que se aprisionam na imanência tortuosa do cotidiano. Tudo é vida a nos provocar reações.
Eu reajo. Fico feliz com o carinho que recebo, vozes ocultas que não publico, e faço das afrontas um ponto de recomeço. É neste equilíbrio que vou desvelando o que sou e o que ainda devo ser, pela força do aprimoramento.
Eu, visto pelo outro, nem sempre sou eu mesmo. Ou porque sou projetado melhor do que sou, ou porque projetado pior. Não quero nenhum dos dois. Eu sei quem eu sou. Os outros me imaginam. Inevitável destino de ser humano, de estabelecer vínculos, cruzar olhares, estender as mãos, encurtar distâncias.
Somos vítimas, mas também vitimamos. Não estamos fora dos preconceitos do mundo. Costumamos habitar a indesejada guarita de onde vigiamos a vida. Protegidos, lançamos nossos olhos curiosos sobre os que se aproximam, sobre os que se destacam, e instintivamente preparamos reações, opiniões. O desafio é não apontar as armas, mas permitir que a aproximação nos permita uma visão aprimorada. No aparente inimigo pode estar um amigo em potencial. Regra simples, mas aprendizado duro.
Mas ninguém nos prometeu que seria fácil. Quem quiser fazer diferença na história da humanidade terá que ser purificado neste processo. Sigamos juntos. Mesmo que não nos conheçamos. Sigamos, mas sem imaginar muito o que o outro é. A realidade ainda é base sólida do ser.
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Não hesitei. Na imensa folha em branco registrei uma única frase. "Sobre o sabor eu não sei dizer. Eu só sei sentir!"
Eu nunca mais pude esquecer aquele dia. A experiência foi reveladora. Eu gosto de laranja, mas até hoje ainda me sinto inapto para descrever o seu gosto. O que dele experimento pertence à ordem das coisas inatingíveis. Metafísica dos sabores? Pode ser...
O interessante é que a laranja se desdobra em inúmeras realidades. Vez em quando, eu me pego diante da vida sofrendo a mesma angústia daquele dia. O que posso falar sobre o que sinto? Qual é a palavra que pode alcançar, de maneira eficaz, a natureza metafísica dos meus afetos? O que posso responder ao terapeuta, no momento em que me pede para descrever o que estou sentindo? Há palavras que possam alcançar as raízes de nossas angústias?
Não sei. Prefiro permanecer no silêncio da contemplação. É sacral o que sinto, assim como também está revestido de sacralidade o sabor que experimento. Sabores e saberes são rimas preciosas, mas não são realidades que sobrevivem à superfície.
Querer a profundidade das coisas é um jeito sábio de resolver os conflitos. Muitos sofrimentos nascem e são alimentados a partir de perguntas idiotas.
Quero aprender a perguntar menos. Eu espero ansioso por este dia. Quero descobrir a graça de sorrir diante de tudo o que ainda não sei. Quero que a matriz de minhas alegrias seja o que da vida não se descreve...
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Tenho conhecido iniciativas maravilhosas por este Brasil imenso. Iniciativas pequenas, mas capazes de revolucionarem o mundo a partir de medidas menores. O poeta já dizia – “Vamos reformar o mundo? Vamos começar lavando os pratos.” Gente que está lavando os pratos do mundo, recomeçando a vida, fazendo pacto com a justiça, ainda que não noticiada.
São as iniciativas do terceiro setor, organizações não governamentais que resolveram arregaçar as mangas ao invés de protestarem com armas e bandeiras. Optaram por outra forma de manifestação. O protesto é civilizado, é construtor. Nasce e se desdobra em iniciativas concretas.
Um exemplo? “Beleza e Cidadania”, uma organização liderada por Lara Dee, uma nordestina que veio para SP em busca de oportunidades. Após alcançar os objetivos pessoais, ela resolveu cuidar dos marginalizados do mundo. A ONG que lidera trabalha a partir do lema “Beleza é fundamental, cidadania é vital!” Todas as iniciativas da organização estão voltadas para o desejo de devolver ao ser humano a beleza perdida. Não, não se trata de uma redução da beleza, limitando o conceito ao atrativo estético. A mística que a move é a Cosmética. Note bem que a palavra “cosmético” deriva da palavra grega ko·sme·ti·kós, que significa “hábil em adornar”. Lara Dee compreendeu a cosmética de maneira ampla e criativa. Mesmo que ela não saiba, ela está movida pela mística da criação do mundo, quando Deus ordena que o caos dê lugar à beleza.
A narração bíblica que trata das origens do mundo nos remete ao contexto da beleza. Deus ordena o caos e dele extrai a criação. O conceito de caos está diretamente associado ao contexto do “não belo”. Caos é a desordem, o anti-cosmos, a feiúra. O gesto criativo de Deus acende a luz e desfaz o poder do caos. É o próprio Deus quem canta: “Tudo é bom, tudo é belo!”
O grande problema é que desde a origem do mundo as escolhas humanas nem sempre estão a serviço da beleza e da bondade. O que a grande mídia noticia e expõe em letras garrafais costuma ser o descomprometimento humano com a continuidade da criação.
É tão bonito pensar que somos continuadores da criação, e que Deus continua criando cada vez que uma ação humana restitui a beleza perdida. É tão bonito pensar que Deus alcança o mundo pela força de braços comprometidos com a beleza e a verdade, assim como os de Lara Dee, que se mobiliza para vencer o poder das serpentes que legitimam a presença de tudo o que é diabólico e destruidor.
Lara Dee nos ensina que num rosto que fica mais bonito Deus canta a sua glória. Num coração que fica mais justo Deus reestabelece o seu projeto. Num único alcóolatra recuperado Deus recupera a humanidade inteira. Lara Dee nos ensina que o bem, mesmo quando não é noticiado ele não perde a sua força, porque se alimenta de convicções silenciosas, mas atuantes. Lara Dee nos ensina que o Cosmos precisa de Ética, e que a urgência de nossos dias é que a humanidade redescubra a habilidade de adornar o mundo.
Aprendamos com ela. Como? Buscando os caminhos da beleza, da verdade e da justiça. Desfazendo os poderes do caos sobre nós. Desarticulando as armadilhas das fealdades sociais que nutrem a indignidade, a falta de brio e as monstruosas iniciativas que desagregam a beleza criada.
Lara Dee é uma voz profética de nossos tempos. Não, ela não é gritada nos átrios sagrados de nossos templos religiosos convencionais. Ela está no mundo, nos subterrâneos do mundo, no fundo que nem sempre eu consigo alcançar. Ele não tem os mesmo altares que eu. Ela não reza com as mesmas cartilhas que eu rezo, nem tampouco celebra do mesmo jeito que eu celebro. O bonito é saber que mesmo estando em pontas tão distintas e distantes, os nossos corações estão congregados pelas mesmas causas e razões. Eu, na celebração da palavra que cristifica o mundo. Ela, na celebração concreta que coloca sobre o meu altar o sacrifício já resultado em ressurreição.
Lara Dee, sigamos juntos na transformação do mundo. Apaixonados pelos calvários da humanidade, mas comprometidos com as alegrias e com as belezas que vislumbramos, mesmo quando o opaco da tristeza insiste em permanecer.
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Já presenciei discursos inflamados de pessoas que acham um absurdo o fato de padre não poder casar.
Eu também fico indignado, mas de outro modo. Fico indignado quando a sociedade interpreta a vida celibatária como mera restrição da vida sexual. Fico indignado quando vejo as pessoas se perderem em argumentos rasos, limitando uma questão tão complexa ao contexto do “pode ou não pode”.
A sexualidade é apenas um detalhe da questão. Castidade é muito mais. Castidade é um elemento que favorece a solidão frutuosa, pois nos coloca diante da possibilidade de fazer da vida uma experiência de doação plena. Digo por mim. Eu não poderia ser um homem casado e levar a vida que levo. Não poderia privar os meus filhos de minha presença para fazer as escolhas que faço. O fato de não me casar não me priva do amor. Eu o descubro de outros modos. Tenho diante de mim a possibilidade de ser dos que precisam de minha presença. Na palavra que digo, na música que canto e no gesto que realizo, o todo de minha condição humana está colocado. É o que tento viver. É o que acredito ser o certo.
Nunca encarei o celibato como restrição.
Esta opção de vida não me foi imposta. Ninguém me obrigou ser padre, e quando escolhi o ser, ninguém me enganou. Eu assumi livremente todas as possibilidades do meu ministério, mas também todos os limites. Não há escolhas humanas que só nos trarão possibilidades. Tudo é tecido a partir dos avessos e dos direitos. É questão de maturidade.
Eu não sou um homem solitário, apenas escolhi ser só. Não vivo lamentando o fato de não me casar. Ao contrário, sou muito feliz sendo quem eu sou e fazendo o que faço. Tenho meus limites, minhas lutas cotidianas para manter a minha fidelidade, mas não faço desta luta uma experiência de lamento. Já caí inúmeras vezes ao longo de minha vida. Não tenho medo das minhas quedas. Elas me humanizaram e me ajudaram a compreender o significado da misericórdia. Eu não sou teórico. Vivo na carne a necessidade de estar em Deus para que minhas esperanças continuem vivas. Eu não sou por acaso. Sou fruto de um processo histórico que me faz perceber as pessoas que posso trazer para dentro do meu coração. Deus me mostra. Ele me indica, por meio de minha sensibilidade, quais são as pessoas que poderão oferecer algum risco para minha castidade. Eu não me refiro somente ao perigo da sexualidade. Eu me refiro também às pessoas que querem me transformar em “propriedade privada”. Querem depositar sobre mim o seu universo de carências e necessidades, iludidas de que eu sou o redentor de suas vidas.
Contra a castidade de um padre se peca de diversas formas. É preciso pensar sobre isso. Não se trata de casar ou não. Casamento não resolve os problemas do mundo.
Nem sempre o casamento acaba com a solidão.
Vejo casais em locais públicos em profundo estado de solidão. Não trocam palavras, nem olhares. Não descobriram a beleza dos detalhes que a castidade sugere. Fizeram sexo demais, mas amaram de menos. Faltou castidade, encontro frutuoso, amor que não carece de sexo o tempo todo, porque sobrevive de outras formas de carinho.
É por isso que eu continuo aqui, lutando pelo direito de ser só, sem que isso pareça neurose ou imposição que alguém me fez. Da mesma forma que eu continuo lutando para que os casais descubram que o casamento também não é uma imposição. Só se casa aquele que quer. Por isso perguntamos sempre – É de livre e espontânea vontade que o fazeis? – É simples. Castos ou casados, ninguém está livre das obrigações do amor. A fidelidade é o rosto mais sincero de nossas predileções.
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A mulher parecia absorvida em sua dor. Trazia no rosto as marcas de um acontecimento que não combina com o tempo. Os dois anos já passados pareciam estacionados em seus olhos, como se a vida não pudesse mais realizar o seu processo natural de prosseguir. Há acontecimentos que não cabem no tempo. Uma dor não dura o mesmo tempo que o fato que a provoca. Ela vai além, muito além. A dor é uma extensão da vida.
O fato foi terrível. Aquela mulher encontrou o seu menino morto na piscina de sua casa. Teve também que retirá-lo das águas. Pegou-o ao colo, assim como tantas outras vezes. Aconchegou-o no peito, assim como nas noites em que o alimentava para que pudesse voltar a dormir tranqüilo. O amor é assim: é feito de madrugadas; feito de silêncios que atribuem sentidos; feito de olhares que contemplam os que amamos como continuidade do que somos. Aquela mulher sabia de tudo isso.
Ao retirar das águas o seu menino já sem vida, aquela mulher parecia cumprir no tempo o prolongamento da escultura de Michelangelo, Pietá (1498), a virgem que segura nos braços o seu filho morto. Pietá é a metáfora da dor materna que não tem nome. A morfologia de um sofrimento agudo que nos retira a fala e que nos dificulta as respostas.
Tive oportunidade de ouvir o seu relato. Contou-me com lágrimas teimosas o acontecido. O cenário era sugestivo. Estávamos à beira do rio Jordão, lugar onde Jesus foi batizado. Ela se aproximou e eu tive a graça de renovar o seu Batismo. Ao derramar água sobre a sua cabeça, foi inevitável o pensamento que me ocorreu. Um pensamento que de alguma forma já se estabelecia como prece. No meu coração, eu pedia a Deus que aquela mulher fosse capaz de retirar definitivamente o seu filho das águas. Pedi ao Senhor da vida que a ajudasse a sepultar o seu filho. Não o sepultamento do esquecimento, mas o que proporciona a ressurreição; aquele que nos dá coragem de olhar para a dor sem que ela nos sufoque.
Logo depois do gesto, enchi-me de coragem e recomendei-lhe com ternura: “Retire o seu menino das águas! Saia da beira da piscina e permita que a vida continue!”. Ela sorriu serena e disse que tentaria. Mais tarde, ela me pediu que escrevesse a frase dita. Eu escrevi. Mas resolvi escrever aqui também. Pode ser que essas palavras caiam nas mãos de pessoas que estejam com dificuldades de permitir o movimento da vida. Pode ser que hoje esse pequeno texto venha encontrar alguém que esteja paralisado pela dor, impossibilitado de prosseguir.
A virgem da piedade encontrou no filho a causa do seu prosseguimento. Pietá só é bela, porque conhecemos a sua continuidade. O filho ressurgiu. Aquele momento não é o definitivo. A dor é a ponte que a fez chegar ao lugar mais belo de seu coração. É a vida. E eu gostaria que não fosse assim. Que meninos não morressem antes da hora. Mas não posso mudar a ordem dos acontecimentos. O que posso é silenciar-me diante da cena e pedir que Deus nos encaminhe para o aprendizado que o acontecimento pode nos trazer.
Fonte: Revista Ir ao Povo
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A padaria da esquina não está iluminada por notícias de milagres. Não há maná no cardápio. O que há é o trigo cotidiano, faminto de fomes e pronto para o prazer da saciedade.
Eu olho devagar para cada coisa e descubro uma vida miserável, mas surpreendente. O homem da garapa não se cansa de acreditar na doçura que comercializa. Todos os dias, ao seu modo, ele se esforça para diminuir o amargor da vida. Moe a cana como se moesse a dureza da existência.
Ao lado, bem ao lado, o jornaleiro espera pelos leitores. Oferecerá ao longo do dia a tradução curiosa de um mundo transmudado em palavra. As manchetes gritam as fofocas que amanhã serão esquecidas, substituídas por outras, enquanto os romances em edições populares resguardam a beleza de homens e mulheres que ficaram eternos, mas que ainda são desconhecidos. O príncipe de Maquiavel está empoeirado no canto. Virou plebeu. Perdeu o garbo da edição primorosa. Caiu de posto.
Os morros dos ventos uivantes estão silenciados. As pilhas de revistas semanais gritam demais e não há vento que possa vencê-las. Iracema, a virgem dos lábios de mel está deitada ao lado de Brás Cubas, o defunto que fala. Romantismo e Realismo em expressões tão inexatas de uma mesma época. Eu continuo...
O ponto de ônibus está cheio. Uma mulher visivelmente abatida está desejosa de voltar para casa. A sacola de embrulhos é uma metáfora da vida. Presa à ponta dos dedos, a vida parece resguardada nos motivos de um papel pardo. O embrulho da mulher, a mulher do embrulho, tudo me faz crer que o caminho comum é o lugar da poesia. O onibus chegará, mas a casa ainda não. Haverá o processo de passar por outras casas que não são a sua. Enquanto isso, o desejo, este alimento que nos leva adiante será nutrido em porções menores.
Entro no meu prédio. Há um homem feliz por me ver chegar. “O senhor andou sumido!” Ele me disse. “É verdade!” Eu concordei. Andar sumido é coisa que não consigo resolver. As distâncias do mundo me separam do meu mundo, do homem da garapa, do jornaleiro, do porteiro que me quer bem...
O elevador me eleva. Chego ao destino de minha porta. O desejo de entrar é imenso. Recordo-me da mulher e suas sacolas de embrulhos. Outro pensamento me ocorre “Bem que eu poderia ter retirado Brás Cubas daquela banca! Seria uma forma de comemorar o centenário de Machado de Assis. Mas agora não importa. Não o fiz.”
Coloco a chave na fechadura. Faço o movimento de abrir. Adentro minha casa. O silêncio de minhas coisas não corresponde aos gritos de minhas causas. Não estou só. O mundo está dentro de mim.
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A arte de morrer em silêncio é atributo que pertence às sementes. A dureza do chão não permite que os nossos olhos alcancem o acontecimento. Antes de ser flor, a primavera é chão escuro de sombras, vida se entregando ao dialético movimento de uma morte anunciada, cumprida em partes.
A primavera só pode ser o que é porque o outono lhe embalou em seus braços. Outono é o tempo em que as sementes deitam sobre a terra seus destinos de fecundidade. É o tempo em que à morte se entregam, esperançosas de ressurreição. Outono é a maternidade das floradas, dos cantos das cigarras e dos assovios dos ventos. Outono é a preparação das aquarelas, dos trabalhos silenciosos que não causam alardes, mas que mais tarde serão fundamentais para o sustento da beleza que há de vir.
São as estações do tempo. São as estações da vida.
Há em nossos dias uma infinidade de cenas que podemos reconhecer a partir da mística dos outonos e das primaveras. Também nós cumprimos em nossa carne humana os mesmos destinos. Destino de morrer em pequenas partes, mediante sacrifícios que nos faz abraçar o silêncio das sombras...
Destino de florescer costurados em cores, alçados por alegrias que nos caem do céu, quando menos esperadas, anunciando que depois de outonos, a vida sempre nos reserva primaveras...
Floresçamos.
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Na linguagem temos os verbos imperativos. São aqueles que dão ordens. Sempre que os leio escuto gritos, vozes querendo me convencer do conteúdo que sugerem. O verbo é a casa da ação. Dele se desdobram movimentos. Verbos mobilizam os sujeitos. É a regra da gramática, mas é também a regra da vida.
Penso nas palavras que me ordenam. Quero compreender a razão de gritarem tanto sobre os meus ouvidos e de me moverem para a vida que vivo. A interpretação que faço do mundo passa pelos verbos que imperam sobre mim. Por isso, a qualidade da vida depende dos verbos que imperam sobre ela.
Gosto de conjugar o verbo “amar” no imperativo – “Ame!” Não há necessidade de complementos. Ame este ou aquele. Ame agora ou depois. Não há justificativas. É só amar. É só seguir a ordem que o verbo sugere. “Ame!” Repito. Não escuto gritos, mas uma voz mansa com poder de conselho. Voz que reconheço ser a de Jesus a me conduzir por um caminho seguro que me fará viver melhor. “Ame!” Ele repete! “Ame!” Ele aconselha.
Tenho aprendido que o amor é o melhor jeito de responder às questões do mundo. Experimento isso na carne. Eu fico melhor cada vez que amo. Digo isso como homem religioso que sou.
A religião é a casa do amor, assim como o verbo é a casa da ação. Se não é, não é religião. É esconderijo onde acomodamos nossa hipocrisia. É lugar onde justificamos nossas intolerâncias. É guerra fria que fazemos em nome de Deus.
Eu ainda acredito que o amor é a religião que o mundo precisa. Jesus ensinou isso. Morreu por crer assim. Elevou à potência máxima o imperativo do amor, e não fugiu das consequências. Tenho medo quando nos especializamos em qualificar as pessoas como boas ou ruins, em nome da religião. Tenho medo de deixar que outros verbos imperem sobre minha vida. Verbos que excluem, abandonam, jogam fora e que condenam a partir de aparências...
É nesta hora que eu me recordo do imperativo de meu Mestre - “Ame!” E só assim eu descanso.
Eu sei que você também costuma se perder em tantas realidades desta vida. Eu sei que o seguimento de Jesus costuma nos colocar em encruzilhadas, porque não há seguimento sem escolhas. É natural que nasçam dúvidas e a gente se pergunte – E agora? Como ser de Deus no meio de tantas realidades contrárias? Como manter o olhar fixo no que cremos sem que a gente precise cometer o absurdo de desprezar os que creem diferente de nós?
Nem sempre conseguimos acertar, fazer da melhor forma.
Quer um conselho? Ame!
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Ao escrever “Mulheres de aço e de flores” eu mergulhei no encanto do universo feminino e sobre ele quis contar histórias. São mulheres reais, outras de sonhos, mas todas elas estão vivas em algum lugar deste mundo.
Eu não quis escrever um livro de catequese. Não quis escrever um livro de auto ajuda. Quis apenas explorar os sentimentos humanos e respeitosamente tocá-los a partir de minha sensibilidade poética. Não tive medo de ousar. Não fiquei preocupado que as pessoas pudessem dizer – “Nossa, isso não é coisa que um padre possa escrever!” Não quis me prender a uma visão limita, que confisca o universo religioso ao discurso beato e pouco humano. Eu me inspirei nos escritores sagrados, e nas histórias que a Sagrada Escritura resguarda. A Bíblia é um livro vivo feito a partir de pessoas concretas e por isso é dialético, controverso. Há relatos interessantíssimos que mostram o lado mais mesquinho da vida humana. As traições, os assasinatos, os incestos, enfim, tudo o que é humano e que sempre temos coragem de contar.
O meu livro é um espaço de segredos confessos. É uma fala que deixei nascer porque a respeito profundamente. As mulheres, desde as mais recatadas até as mais ousadas, todas elas cumprem o ofício de mostrar o que somos. Elas, na coragem que a literatura me empresta, contam o que naturalmente não contamos. Duvidam do que não temos coragem de duvidar. Amam de um jeito que não gostamos de amar.E falam, falam e falam...
A literatura é o avesso da vida, mas pode ser também o seu lado mais acertado. Através dela podemos sugerir uma vida que ainda não temos, ou sonhos que ainda não nos pertencem. Ela pode nos colocar no prumo onde sobrevivem nossas forças e fraquezas, nossas vergonhas e nossas belezas.
“Minhas mulheres” são assim. Elas querem nos lembrar que é bonito ser humano. Que não é vergonhoso ser portador de fragilidades. Que a dor é universal, que a alegria nem sempre. Que a esperança é a terceira margem do amor. Que há sempre uma luz a ser devolvida, uma vela a ser acesa, um Elviro a ser domesticado, um Redentor a ser reconhecido. “Minhas mulheres” querem nos ensinar que o amor humano é a outra face do amor divino, e que ao ser resgatado humanamente pelo amor que me toca, de alguma forma os meus dedos alcançam a cruz. Que na pureza de um beijo experimentado a eternidade já nos mostra o seu sabor.
“Minhas mulheres” querem nos recordar que um riso pode nos ajudar a esquecer o peso da vida. Que uma história não pode ser vista somente a partir de uma frase, e que o texto tem sempre que ser analisado a partir de seu contexto. A mesma regra vale para a Sagrada Escritura, pois fora do contexto, há frases bíblicas que podem justificar até mesmo o assasinato brutal.
“Minhas mulheres” não são ofensivas. Elas são filhas do tempo, dos ventos, das dores, das alegrias. São filhas da vida, e nada que é verdadeiramente vivo pode ofender. Elas só são sinceras.
Por isso, se você desejar conhecer as “minhas mulheres”, aproxime-se do livro sabendo que se trata de uma obra literária. É um livro de histórias.
Não queira encontrar conselhos formulados, prontos para serem aplicados.
Mas uma coisa eu lhe prometo – Riso e choro! Tudo ao mesmo tempo.
Por que? Não sei. Eu também não sei porque as coisas me fazem rir ou chorar. Eu apenas obedeço ao impacto da vida e por ela me deixo envolver.
O meu livro é simples. Não é um tratado de teologia. Está longe de querer ser isso. Eu só o considero religioso. Não sei fazer nada que não seja. Ele tem sacralidades, mas tem também os rastros do profano. A vida é assim. O desafio do leitor é recolher sob o altar do coração o que ele eleger como sagrado, e expulsar o que considera profano. Nisso eu não entro, não tenho acesso porque é trabalho do leitor.
Agora uma coisa é certa – A maior pretensão das minhas mulheres é mostrar que no aço da dureza humana, a flor da Graça divina costuma nos surpreender generosa.
Boa leitura.
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Sou como o rio em processo de vir a ser. A confluência de outras águas e o encontro com filhos de outras nascentes o tornam outro. O rio é a mistura de pequenos encontros. Eu sou feito de águas, muitas águas. Também recebo afluentes e com eles me transformo,
O que sai de mim cada vez que amo? O que em mim acontece quando me deparo com a dor que não é minha, mas que pela força do olhar que me fita vem morar em mim? Eu me transformo em outros? Eu vivo para saber. O que do outro recebo leva tempo para ser decifrado. O que sei é que a vida me afeta com seu poder de vivência. Empurra-me para reações inusitadas, tão cheias de sentidos ocultos. Cultivo em mim o acúmulo de muitos mundos.
Por vezes o cansaço me faz querer parar. Sensação de que já vivi mais do que meu coração suporta. Os encontros são muitos; as pessoas também. As chegadas e partidas se misturam e confundem o coração. É nesta hora em que me pego alimentando sonhos de cotidianos estreitos, previsíveis.
Mas quando me enxergo na perspectiva de selar o passaporte e cancelar as saídas, eis que me aproximo de uma tristeza infértil.
Melhor mesmo é continuar na esperança de confluências futuras. Viver para sorver os novos rios que virão.
Eu sou inacabado. Preciso continuar.
Se a mim for concedido o direito de pausas repositoras, então já anuncio que eu continuo na vida. A trama de minha criatividade depende deste contraste, deste inacabado que há em mim. Um dia sou multidão; no outro sou solidão. Não quero ser multidão todo dia. Num dia experimento o frescor da amizade; no outro a febre que me faz querer ser só. Eu sou assim. Sem culpas.
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Ir; um ir sem tréguas, senão as poucas pausas dos descansos virtuosos que nos devolvem a nós mesmos. Idas que não findam e que não esgotam os destinos a serem desbravados. Passagens; páscoas e deslocamentos.
Eu vou. Vou sempre porque não sei ficar. Vou na mesma mística que envolveu os meus pais na fé, os antepassados que viram antes de mim. Vou envolvido pela morfologia da esperança; este lugar simples, prometido por Deus, e que os escritores sagrados chamam de Terra Prometida. Eu quero.
O lugar sugere saciedade e descanso. Sugere ausência de correntes e cativeiros...
Ainda que o caminho seja longo, dele não desisto. Insisto na visão antecipada de seus vislumbres para que o mar não me assuste na hora da travessia. Aquele que sabe antecipar o sabor da vitória, pela força de seu muito querer, certamente terá mais facilidade de enfrentar o momento da luta.
O povo marchava nutrido pela promessa. A terra seria linda. Nela não haveria escravidão. Poderiam desembrulhar as suas cítaras; poderiam cantar os seus cantos; poderiam declamar os seus poemas. A terra prometida seria o lugar da liberdade...
Mas antes dela, o processo. Deus não poderia contradizer a ordem da vida. Uma flor só chega a ser flor depois que viveu o duro processo de morrer para suas antigas condições. O novo nasce é da morte. Caso contrário Deus estaria privando o seu povo de aprender a beleza do significado da páscoa. Nenhuma passagem pode ser sem esforço. É no muito penar que alcançamos o outro lado do rio; o outro lado do mar...
E assim o foi. O desatino das inseguranças não fez barreira às esperanças de quem ia. O mar vermelho não foi capaz de amedrontar os desejantes da Terra, os filhos da promessa. Pés enxutos e corações molhados, homens e mulheres deitaram suas trouxas no chão; choraram o doce choro da vitória, e construíram de forma bela e convincente o significado do que hoje também celebramos.
A vida cresceu generosa. O significado também.
Ainda hoje somos homens e mulheres de passagens; somos filhos da Páscoa.
Os mares existem; os cativeiros também. As ameaças são inúmeras. Mas haverá sempre uma esperança a nos dominar; um sentido oculto que não nos deixa parar; uma terra prometida que nos motiva dizer: Eu não vou desistir!
E assim seguimos. Juntos. Mesmo que não estejamos na mira dos olhos.
O importante é saber, que em algum lugar deste grande mar de ameaças, de alguma forma estamos em travessia...
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"Desperta, tu que dormes"! (cf. Efésios 5, 6 e Isaías 26,19; 60,1). Quero ressaltar a primeira parte do refrão dessa música, que é o que Deus faz. É porque Ele desceu a mão, como num gesto violento que acorda quem está dormindo. Deus não pode fazer nada para o coração preguiçoso, que não quer ser mudado. O processo humano é difícil. Quanto sangue você tem que suar para ser uma mulher e um homem com integridade. Aquele que 'desce a mão' o faz para você melhorar. Não tem como conciliar o Cristianismo com a preguiça da vida, esquecendo-nos de como nós poderíamos ser como pessoas, sem cuidar da nossa vida. Coração preguiçoso não tem lugar no céu, porque Deus o quer de pé!
Hoje, uma mulher jovem, com lágrimas nos olhos, me dizia: ‘Deus tem me mantido em pé através da Canção Nova. Eu perdi, no mesmo acidente, meu pai, meu esposo e meus filhos’. Ficar de pé quando tudo deu errado e sentir que a força de Deus o alcança! Ficar de pé quando se está no 'calvário', onde não é lugar de ficar sentado e sim de pé. Sentir-se de pé mesmo quando o 'calvário' está 'armado' e cheio de curiosos.
"Desperta, tu que dormes!". Não dá para ficar parado ou sentado e fazer de conta que não está acontecendo nada. Que caia por terra toda hipocrisia e toda máscara!
O amor é provado no fogo, na dura experiência de dar a vida pelo outro. Caso contrário, não é amor; é ilusão. Você sabe que alguém o ama não pelo que ele fala, mas pelo que faz. O amor não sobrevive de teorias. Não adianta falar para seu filho que o ama se seus gestos não correspondem a esse amor. Palavras sem gestos não edificam.
O 'calvário' é ladeira acima, em meio a pedras, e sem asfalto. Nossos passos não deslizam com facilidade. Não se chega ao céu de patins. São com essas 'botas da dor', difíceis, que se chega lá. Ninguém lhes prometeu que os valores seriam fáceis de ser alcançados. Você sabe muito bem o quanto lhe custou para chegar até onde chegou; as coisas não vêm de forma tão fácil assim.
Nós perdemos os rituais. Como era bom o tempo em que preparávamos nossas refeições. Era um ritual: as crianças descascando milho, as tias cozinhando-os no fogo, outro fazendo a palha, e a família toda em um ritual de alegria fazendo a pamonha. Nós tínhamos rituais de vida. Quando comíamos carne de porco ou fazíamos um almoço para toda a vizinhança e todo mundo da rua, para comermos juntos. Mas hoje, nossa comida vem toda pronta. Nós não temos mais o ritual de preparar o que nós comemos.
'O amor não sobrevive de teorias. Palavras sem gestos não edificam', afirma Pe. Fábio
E aquela experiência de zelar por aquilo que é seu se perdeu. De consertar as coisas da casa, quando o pai sempre chamava o filho para aprender.
Hoje tudo é muito prático, e perdemos o valor da realidade simbólica, perdemos a graça do diálogo, das conversas.
Às vezes, nossos filhos estão loucos para conversar conosco, mas não temos tempo. Nós precisamos construir relações concretas. Às vezes se cuida dos 'amigos virtuais', mas não se cuida de quem está ao lado. A tecnologia não pode se utilizar de nós, quem deve mandar nela somos nós. Há muitas coisas que nos escravizam. Temos de abrir os olhos para tudo isso e sair da cegueira. Nós não pensamos nas conseqüências que minam a capacidade de sermos pessoas concretas e reais. Damos muito tempo para as pessoas no computador, nos 'messenger's' e tantas coisas mais, mas não damos uma palavra para um amigo do nosso lado.
Se não ritualizarmos a nossa vida nos tornaremos insensíveis. Aí Deus vai ter que 'descer a mão' mesmo, e o 'sopapo' vem quando você percebe que está perdendo o seu filho para as drogas; perdendo o pai para o álcool e a mãe para infidelidade. Preste atenção aos 'tapinhas' da vida para não ter um tapa mais forte adiante; podendo ser tarde demais. "‘Desperta, tu que dormes!" Pessoas que estão dormindo e ficam na preguiça, é como dar um remédio para aquele paciente que quer morrer.
Quando éramos crianças aprendíamos a tecer, a bordar e a costurar. Será que o bordado, que fazíamos exteriormente, não repercutia na nossa alma, interiormente, tornando-nos mais pacientes? Cortar o mato com a enxada, por exemplo, não fazemos mais nós mesmos. Não diga: 'Eu posso pagar'. Hoje é tudo muito diferente e podemos pagar para que alguém o faça, mas, de vez em quando, faça você mesmo.
Todas as mulheres lustram os móveis para que fiquem bonitos, mas ninguém vai saber 'lustrar' o rosto de seu filho como você. 'Desça do salto!' Vá para a simplicidade. Em vez de levar o filho ao restaurante que oferece a comida mais saborosa que existe, surpreenda-o com um avental fazendo vocês a comida, você e seu marido. A comida vai ter o sabor mais gostoso que qualquer outro restaurante.
A cura de nossos afetos vem por meio desses rituais. É uma alegria chegar em casa e ver a mãe cozinhando.
'Desperta, tu que dormes! Seja justo com o que Deus lhe oferece!'
Abra os olhos para o filho que você tem, abra os olhos para a mulher que você tem, não se acostume com o seu marido nem com sua esposa. Abra espaços para as surpresas. Nossos afetos são construídos dentro de casa. Nada pode ser mais destruidor do que uma palavra do pai e da mãe. Você tem o direito de dizer o que quiser, mas não tem o direito de dizer do "jeito" que quiser. Nós traumatizamos as pessoas na forma como dizemos as coisas.
"Desperta, tu que dormes!". Talvez você esteja perdendo a oportunidade preciosa de ser uma esposa, uma mãe, um filho, um marido, tratando-os como se fossem 'um qualquer'. Cuide do que é seu! O amor requer calma e um olhar vagaroso. Essas coisas são tão boas e tão simples, mas ouvimos pouco sobre elas. Corremos o risco de deixar a vida passar e não viver direito com aqueles que amamos.
Da sua casa você é o profeta. Você é convidado a ser o profeta. É você quem tem de mudar. A transformação é na sua vida, no poder de ser profeta no seu 'território', em sua casa, sendo a voz de Deus em nome do amor vivo presente em você. "‘Desperta, tu que dormes!" Seja justo com o que Deus lhe oferece. A sua casa merece sua coragem. Você está diferente!
(Acampamento da Cura e Libertação dos Afetos e Emoções - Transcrição: Eliziane Alves)
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Essa palavra é muito concreta e humana, inicialmente podemos achar um absurdo assemelhar uma criança ao escravo, é simples porque uma criança não é capaz de fazer a separação, a criança é egoísta e o egoísta é aquele que se ocupa do seu mundo, para ele o outro é uma extensão da sua necessidade. As crianças são escravas de suas necessidades.
A maturidade de uma criança acontece na medida em que ela vai crescendo. Uma criança é escrava porque ela não sabe a razão da regra, mas submete. Quando ela cresce e obedece a regra porque compreende, ela deixa de ser escrava.
Quantos jogos construtivos, que educa a criança para compreensão de regra, são jogos simples de encaixe entre outros, não videogames que muitas vezes a regra é matar.
A palavra de São Paulo é atual. Nós também trazemos as infantilidades nos nossos afetos, insistimos em trazer em nós um arsenal de sentimentos infantis, egoístas, só pensamos em nós e em nossas necessidades. Quando somos afetivamente infantis, nos transformamos em verdadeiros monstros. Uma criança se você não disciplina, se ela é sem regra, ela é um monstro.
Nenhum perdão será concreto se antes você não se perdoar.
Tudo aquilo que você desconhece se torna soberano sobre você, o desconhecido nos escraviza. Quantas vezes você teme a pessoa desconhecida, e aí está a infantilidade.
A birra é o excesso da criança, excesso da infantilidade, e na birra a criança se sente fracassada por não conseguir seu objetivo. Ensine a criança a lhe dar com as impossibilidades. E você, quantas vezes dá sua birra? Quantas vezes, não sabe lhe dar com os limites?
Quantos adultos que não se manifestam, não têm coragem de dá opinião porque são infantis, são escravos de seus medos, isso é mesma coisa de birra. Partilhe, dê opinião. A nossa birra se manifesta na nossa cara feia, nas nossas respostas ríspidas, só não temos a coragem de nos jogar no chão.
Quantos adultos com medo de quarto escuro. Eu pergunto: Qual o mal de um quarto escuro? Mas quantas vezes fomos trancados nos quartos e disseram que lá dentro tinha um monstro. Uma criança ela não tem inteligência suficiente para saber que ali não tem um bicho, porque a referência que ela tem é o adulto. E quantos adultos presos nas emoções do passado.
Como você pode curar seu medo de quarto escuro? Traga à sua razão o que te faz sentir medo. Entre no quarto escuro e diga: ‘Este quarto não pode me fazer mal’.
Quando somos afetivamente infantis, nos transformamos em monstros.
Não importa quantos anos você tem. Sente-se com toda sua maturidade, sente-se com você criança e tenha a oportunidade de se curar dos medos do passado. Olhe para o seu abandono que lhe desespera, fale que quem te abandonou é porque não te conheceu e quem não te conheceu não te amou. Você hoje é adulto, maduro, olhe para as fases da sua vida que precisa ser curada, olhe para você criança, você adolescente. Permita Deus resgatar a sua alma ferida. Muitas vezes é preciso voltar no tempo e reconciliar consigo mesmo. Nenhum perdão será concreto se antes você não se perdoar, nenhum olhar será profundo se você não olhar.
A emoção é burra. Olhe para uma pessoa apaixonado é quase bobo. As emoções são burras.
Deus é especialista de curar corações machucados.
O que pode nos destruir na vida não é o que os outros fazem para nós, mas o que permitimos que outros façam de nós. O maior consolo que você precisa não é dos outros, é de você mesmo. Não adianta o outro deixar você livre, e você se sentir escravo.
Seja ‘rio’. Pare de dá birra. Pare de lamentar o que você não teve. Seja rio, que quando coloca barreira, ele não deixa de crescer, mas fica mais profundo.
Deus ainda prefere os miseráveis. Deus olha para você, e no momento da sua birra Ele se encontra com você.
(Acampamento da Cura e Libertação dos Afetos e Emoções - Transcrição: Elcka Torres)
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Eu tenho que ser eu. Uma pessoa só pode ser pessoa, se ela é dona de si. Nós temos que tomar posse do que somos. Quantas coisas você possui e ainda não tomou posse? O amor é a capacidade de descobrir no outro o que ele ainda não viu que tem. É como se você tivesse uma grande propriedade e não tivesse a capacidade de andar por ela para demarcá-la, e não a conhece na totalidade. Mas aos poucos vai sendo dono daquilo que já é seu.
Ser pessoa é ser dono de você mesmo, e saber lidar com seu jeito de ser, de amar, de sentir, de pensar, de ter suas limitações e saber o que você pode. Quantas vezes você se dispôs a ser o que não era, dizendo 'sim' onde era para dizer 'não'? Você não teve consciência do que não podia. É o que Jesus sempre fez com as pessoas. Fazendo-as tomarem posse do próprio território, de si mesmas. 'Eu sou dono de mim, e não abro mão'.
Quem é o 'prefeito' de sua 'cidade'? Tenha coragem de dizer aos inimigos: 'Aqui nesta cidade tem prefeito (eu), e aqui não tem lugar para os bandidos. Eu não abro mão do meu território'. E é aqui que Deus trabalha em nós para celebrar a Eucaristia, é para Deus que nos entregamos de novo. Eu sou pessoa, e me recebo de Deus o tempo todo. E Ele diz: "Cuide do que você é. Você não tem o direito de deixar as pessoas lhe roubar". E tem pessoas que te 'devolvem'. A experiência com Deus sempre diz: "Eu lhe devolvo".
Não tenha preguiça de conhecer seu 'território' e saber quem você é realmente. O total desconhecimento de si, não pode acontecer. A pessoa que não é 'pessoa', não tem assunto e sabe tudo o que acontece na vida do outro, mas não sabe de si mesma.
As pessoas que vivem preocupadas com as novelas da vida, se desgastam com pessoas que nem conhecem. Não é fácil compreender o território humano. Se investigar e conhecer o 'porquê' de algumas reações, o 'porquê' aquela raiva foi tão grande naquela hora, o 'porquê' eu explodi com aquela pessoa... É descobrir o 'porque' do afeto que tenho dentro de mim. Você deixa de ser explosiva demais quando toma posse do que é. Tudo isso porque você está em processo de construção. Deveríamos estar com placas dizendo: 'Estamos em obra, cuidado!' É o seu processo de 'feitura' de ser pessoa.
'Não tenha preguiça de conhecer seu ‘território’ e saber quem você é realmente'
Enquanto você viver haverá partes deste 'território' para conhecer. Tantas coisas nos foram entregues, mas se elas não vêm à tona, e nem as investigarmos, tudo o que temos dentro de nós fica sem uso. Quanta coisa preciosa você tem dentro de você e não sabe por quê fica só na superficialidade do conhecimento de si? Quando é que você sabe que uma pessoa se ama? Você só sabe que ela se ama quando ela se cuida, quando tem disciplina.
Que você não morra com seus valores ‘engavetados’, pois Deus lhe dá talentos para que você os use, e não para deixar guardado.
'Eu sou um dom de Deus'. Todos os dias há alguma coisa para você ir atrás e descobrir. Você se recebe de Deus, Ele que me deu esta obra todos os dias. Temos que ser bom naquilo que a gente faz para nos colocarmos à serviço dos que necessitam. Uma pessoa só é pessoa quando se disponibiliza aos outros. Aquilo que recebo de Deus coloco à disposição dos outros. E nisso temos a integração de uma personalidade saudável.
Ser pessoa não é só contemplar o que sou e tenho de melhor, mas ser pessoa é descobrir e cultivar o que tenho de melhor para que outros sejam beneficiados. Como Jesus fazia o tempo todo em sua capacidade de se doar e ensinar, é preciso se doar também. É necessário tomar cuidado para outra pessoa não tomar posse do que você é, pois a partir daí você não terá mais domínio sobre o que é seu. Se não sou capaz de tomar conta de mim, perco meus talentos e não me possuo mais. Quantas vezes você foi machucado nesta vida e pessoas lhe roubaram? Quando não me possuo, tenho dificuldade de ser para o outro, e corro o risco de não ser o que devo ser.
Estabeleça o seu limite. Seja firme!
(Acampamento da Cura e Libertação dos Afetos e Emoções - Transcrição: Eliziane Alves)
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Vejam as situações que nos jogam para debaixo da mesa, pessoas que são maltratadas nos seus afetos, que são as camadas exteriores, mas muito mais ainda nas interiores. O afeto é muito fácil de ser despertado, o afeto é uma forma de memória, recorda as lembranças que temos. Ao escutar uma música nossa memória faz-nos voltar àquele fato, àquela situação, sendo assim uma memória afetiva, que tem poder sobre nós. A nossa memória afetiva nos remete a não gostar de uma pessoa que acabamos de ver, e não temos razão - não conhecemos sua história, gostos, não convivemos - para não gostar de uma pessoa que acabou de chegar a nossa vida. Esta pessoa tem alguma coisa de você mesmo, que você não gosta. Você olha para ela e lembra-se de uma coisa que você não gosta no seu pai, sua mãe. Mas também tem aquelas pessoas que chegam perto de nós e vamos com a "cara" delas.
Assim como Jesus, que era amável com todos, pois, tinha impelido dentro de si esta graça; cada vez que você se encontra com uma pessoa, formam-se os "nós". Se tivermos uma corda, fazemos um nó, um encontro, assim é o que acontece conosco, e isso nos transforma. Essa é a nossa possibilidade de encontrarmos com o outro, tirando de mim o que tenho de mais precioso, de mais lindo; essa é a empatia que surge quando você encontra com o outro, essa provocação que muitas vezes acontece, do encontro. O que sobra é o resto entre mim e o outro, e tenho que aprender a fazer a digestão dos pensamentos e se não consigo, surge a indigestão emocional.
'No momento em que o seu coração se ocupa de ódio, você não será capaz de amar ninguém'
Os traumas acontecem quando somos traídos e nos fazem ir para debaixo da mesa. Existem dois aspectos da traição: quem traiu - está dando acesso para ser traído - e aquele que fica guardando a traição. Combater os inimigos do lado de fora, é fácil, mas combater a traição a si mesmo, não é nada fácil.
Às vezes caímos de barrancos, e o grande problema não é cair, mas saber como se levantar. Quantas pedras já lhe atiraram, quanta fofoca já machucaram você. Jogam pedras em nós, seguramos as pedras e jogamos novamente, ou nem jogamos. O problema não está na pedra que o outro nos joga, mas, quando seguramos a pedra e ficamos agarrados, indo para debaixo da mesa.
Levou prejuízo? Levanta! Sacode a poeira e dê a volta por cima. Tem gente que recebe uma pedra e fica decorando a vida com ela. A melhor coisa que tem é jogar a pedra fora, não permita que o seu agressor jogue a pedra e você fique com ela na mão. Quantos afetos estragados dentro de nós, coisas que deveríamos jogar fora e não jogamos.
No momento em que o seu coração se ocupa do ódio, você não será capaz de amar ninguém. Só seremos capazes de amar, se sairmos debaixo da mesa e entendermos o que para nós é valor.
A sociedade nos faz acreditar que os vícios são comuns, as famílias vão sendo roubadas delas mesmas, é o vício roubando a originalidade deles mesmos. Os "seqüestradores" estão viciando os nossos filhos e os matando em vida.
'Se precisamos aprender sobre Deus, precisamos também aprender sobre nós mesmos'
Foto: Wesley Almeida
Uma idéia boa substitui uma idéia ruim, um pensamento ruim, por um pensamento bom. Por isso que em meio ao sofrimento procuramos dentro do nosso afeto respostas fáceis, respostas refinadas, mas temos que aceitar as respostas integrais. Muitas vezes preferimos os afetos refinados, aos integrais; pois os integrais dão trabalho para serem aceitos, exigi de nós muito mais estrutura, muito mais trabalho e organização.
Como os alimentos, preferimos aquele que será digerido mais rápido para não dar muito trabalho ao estômago, e cada vez mais se fica gordo por não deixar o estômago trabalhar. Temos de aprender a comer alimentos integrais para não deixar o nosso estômago preguiçoso. Assim também acontece com os nossos afetos, temos que aceitar e saber como administrar os afetos.
Não viva um personagem. Você tem que ser você mesmo e deixar que o outro descubra o seu verdadeiro "eu". E para que o outro não seja aquilo que eu quero que ele seja, buscando no outro uma idealização de uma pessoa perfeita. Se precisamos aprender sobre Deus, precisamos também aprender sobre nós mesmos.
Escrevi uma música a partir do testemunho de uma mulher que me dizia que iria ficar em casa uns 10 dias porque o marido havia batido muito nela, estava toda marcada com hematomas roxos. Se não bastasse a agressão física, também a moral. Vemos o quanto se tem desvalorizado a figura da mulher. Cada vez que você mulher, estiver prestes a apanhar de seu marido, peça para ele retirar a sandália dos pés, pois você é templo santo, é templo de Deus.
Saber que Deus cuida de nós é muito bom! É muito bom saber que alguém cuida de nós, pois quando passamos por esta experiência de sermos amados, somos encorajados por aquele que nos ama. Se pelas dificuldades vamos para 'debaixo da mesa', quando percebemos que Deus nos ama, saímos e nos sentimos amados.
Vejam as situações que nos jogam para debaixo da mesa, pessoas que são maltratadas nos seus afetos, que são as camadas exteriores, mas muito mais ainda nas interiores. O afeto é muito fácil de ser despertado, o afeto é uma forma de memória, recorda as lembranças que temos. Ao escutar uma música nossa memória faz-nos voltar àquele fato, àquela situação, sendo assim uma memória afetiva, que tem poder sobre nós. A nossa memória afetiva nos remete a não gostar de uma pessoa que acabamos de ver, e não temos razão - não conhecemos sua história, gostos, não convivemos - para não gostar de uma pessoa que acabou de chegar a nossa vida. Esta pessoa tem alguma coisa de você mesmo, que você não gosta. Você olha para ela e lembra-se de uma coisa que você não gosta no seu pai, sua mãe. Mas também tem aquelas pessoas que chegam perto de nós e vamos com a "cara" delas.
Assim como Jesus, que era amável com todos, pois, tinha impelido dentro de si esta graça; cada vez que você se encontra com uma pessoa, formam-se os "nós". Se tivermos uma corda, fazemos um nó, um encontro, assim é o que acontece conosco, e isso nos transforma. Essa é a nossa possibilidade de encontrarmos com o outro, tirando de mim o que tenho de mais precioso, de mais lindo; essa é a empatia que surge quando você encontra com o outro, essa provocação que muitas vezes acontece, do encontro. O que sobra é o resto entre mim e o outro, e tenho que aprender a fazer a digestão dos pensamentos e se não consigo, surge a indigestão emocional.
'No momento em que o seu coração se ocupa de ódio, você não será capaz de amar ninguém'
Os traumas acontecem quando somos traídos e nos fazem ir para debaixo da mesa. Existem dois aspectos da traição: quem traiu - está dando acesso para ser traído - e aquele que fica guardando a traição. Combater os inimigos do lado de fora, é fácil, mas combater a traição a si mesmo, não é nada fácil.
Às vezes caímos de barrancos, e o grande problema não é cair, mas saber como se levantar. Quantas pedras já lhe atiraram, quanta fofoca já machucaram você. Jogam pedras em nós, seguramos as pedras e jogamos novamente, ou nem jogamos. O problema não está na pedra que o outro nos joga, mas, quando seguramos a pedra e ficamos agarrados, indo para debaixo da mesa.
Levou prejuízo? Levanta! Sacode a poeira e dê a volta por cima. Tem gente que recebe uma pedra e fica decorando a vida com ela. A melhor coisa que tem é jogar a pedra fora, não permita que o seu agressor jogue a pedra e você fique com ela na mão. Quantos afetos estragados dentro de nós, coisas que deveríamos jogar fora e não jogamos.
No momento em que o seu coração se ocupa do ódio, você não será capaz de amar ninguém. Só seremos capazes de amar, se sairmos debaixo da mesa e entendermos o que para nós é valor.
A sociedade nos faz acreditar que os vícios são comuns, as famílias vão sendo roubadas delas mesmas, é o vício roubando a originalidade deles mesmos. Os "seqüestradores" estão viciando os nossos filhos e os matando em vida.
'Se precisamos aprender sobre Deus, precisamos também aprender sobre nós mesmos'
Uma idéia boa substitui uma idéia ruim, um pensamento ruim, por um pensamento bom. Por isso que em meio ao sofrimento procuramos dentro do nosso afeto respostas fáceis, respostas refinadas, mas temos que aceitar as respostas integrais. Muitas vezes preferimos os afetos refinados, aos integrais; pois os integrais dão trabalho para serem aceitos, exigi de nós muito mais estrutura, muito mais trabalho e organização.
Como os alimentos, preferimos aquele que será digerido mais rápido para não dar muito trabalho ao estômago, e cada vez mais se fica gordo por não deixar o estômago trabalhar. Temos de aprender a comer alimentos integrais para não deixar o nosso estômago preguiçoso. Assim também acontece com os nossos afetos, temos que aceitar e saber como administrar os afetos.
Não viva um personagem. Você tem que ser você mesmo e deixar que o outro descubra o seu verdadeiro "eu". E para que o outro não seja aquilo que eu quero que ele seja, buscando no outro uma idealização de uma pessoa perfeita. Se precisamos aprender sobre Deus, precisamos também aprender sobre nós mesmos.
Escrevi uma música a partir do testemunho de uma mulher que me dizia que iria ficar em casa uns 10 dias porque o marido havia batido muito nela, estava toda marcada com hematomas roxos. Se não bastasse a agressão física, também a moral. Vemos o quanto se tem desvalorizado a figura da mulher. Cada vez que você mulher, estiver prestes a apanhar de seu marido, peça para ele retirar a sandália dos pés, pois você é templo santo, é templo de Deus.
(Acampamento da Cura e Libertação dos Afetos e Emoções - Transcrição: Rogério Viana)
Publicado por Cylene França
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Deus só pode alguma coisa em nós quando somos capazes de olhar as situações com amor.
Na sua infância, você já quebrou alguma coisa de sua mãe e ficou com medo de que ela descobrisse, e se enfiou debaixo da mesa para poder se esconder? Comigo isso sempre acontecia. Quantas vezes nos escondemos das situações debaixo da mesa. O medo é tão maior do que o que pode acontecer conosco que preferimos nos esconder. Mas vai chegar um momento em que teremos de enfrentar as dificuldades, as nossas fraquezas, os nossos erros.
Lembro-me de minha mãe diante do presépio que ela havia ganhado de minha avó, aquilo era de muito valor para ela, pois foi minha avó que lhe tinha dado. Quando o presépio estava pronto, nunca podia tocar nele. Mas quando eu estava maiorzinho, minha mãe permitiu que eu pegasse o Menino Jesus. Um dia, na ausência dela eu me achei cheio de autoridade para carregar o Menino Jesus e saí para mostrar ao meu vizinho. No meio do caminho comecei a correr e o deixei cair e, na ânsia e na pressa, peguei-o do chão e continuei a minha empreitada para chegar à casa do meu vizinho. E quando o mostrei a ele, disse-me que era bonito, mas estava sem a cabeça. Desesperado, voltei ao lugar onde ele tinha caído e procurei pela cabeça, sendo ajudado pela minha prima, a colamos e o coloquei no presépio.
Quando minha mãe chegou em casa, ao olhar para mim, percebeu algo estranho e perguntou o que havia acontecido. Logo abracei as pernas dela e comecei a chorar e disse que havia quebrado o Menino Jesus. Ela, olhando para mim, levantou-me e deu um sorriso dizendo que não tinha problema. Percebi, naquele momento, o verdadeiro valor da misericórdia, o qual nenhum livro de teologia me ensinou; aprendi ali, na simplicidade de minha mãe.
Na vida somos engaiolados com os nossos medos, nossas inseguranças.
Outro dia estive com minha amiga, que teve sua irmã seqüestrada por 20 dias. Imagine durante 20 dias uma pessoa sendo tratada como um nada, no escuro? Ali ela devia imaginar: “Será que eles vão pagar o meu resgate? Será que tenho este valor”?
A vida humana gira em torno do valor, a fonte de todos os desejos do ser humano é o desejo de ser desejado sempre.
O tempo todo passamos da experiência de sair da multidão e ser reconhecidos como único. Ninguém deseja ser visto como uma multidão, mas individualmente. No momento do seqüestro isso vem à tona: "Será que valho o que está sendo cobrado?" Os maus-tratos do cativeiro minam os conceitos que temos sobre nós mesmos. Não falo do seqüestro do corpo, mas do seqüestro da subjetividade, quando você depara com suas fragilidades e não sabe negociar, e vive como vítima seqüestrada. Quantas pessoas nos metem medo só no olhar; isso não é amor. Quantas pessoas nos reprovam e nos levam para "debaixo da mesa", para o cativeiro!
Há pessoas que nos roubam, que nos mandam para "debaixo da mesa"! Quantas vezes, a vida o levou para "debaixo da mesa"? Quantas pessoas estão "debaixo da mesa "porque não tiveram coragem de enfrentar o “seqüestrador”, de enfrentar os seus erros e fracassos. Se você não enxergar os seus erros e ver neles uma oportunidade de mudança, você vai permanecer "debaixo da mesa".
Quando você está no escuro e precisa de luz, você olha a beleza da vela ou se ela tem pavio? Pare de prestar atenção no que a vida vai fazer. Deixe a "cera", olhe o "pavio", olhe o essencial! O essencial é o "pavio", é você, sua história. Pare de olhar a "cera" destruída, arranhada, olhe o "pavio" que está pronto para iluminar, para queimar. E o que queima é vida nova. Ame-se! Não importa o que tenha acontecido em sua vida; não olhe para aquilo que você perdeu, para aquilo que foi estragado, olhe para o "pavio".
Deus não olha para a multidão, Deus olha você. O olhar de Deus não se desviou da sua vida em nenhum instante.
Pode ser que hoje você tenha um passado horrível para ser arrumado, talvez você tenha medo de sair "debaixo da mesa", mas Deus o convida para sair do seu "cativeiro". Deus rompe todos os "cativeiros" possíveis!
(Acampamento da Cura e Libertação dos Afetos e Emoções - Transcrição: Rogério Vieira)
Publicado por Cylene França
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Se quiser ser de Deus, terá que viver as duas vias do Senhor: ‘Amarás ao Senhor teu Deus e ao próximo como a ti mesmo’.
O que você entende por esta palavra 'amor'?
É impressionante o quanto o amor de Deus nos toca. Os poetas sempre tentaram decifrar o amor, mas nunca conseguiram. Assim como Luiz de Camões em seu poema: ‘O amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer’. O amor não se poetiza. Quantas vezes sentimos o amor e não sabemos onde realmente dói? O amor é revelação, inauguração, tem o poder de ser novo com aquilo que estava velho.
Jesus sabe da capacidade de olhar as coisas miúdas da vida, as que não damos valor, e aquelas que ninguém havia visto antes. Colocando os pés no seguimento de Cristo, ouvimos a Palavra para olhar a vida diferente: ‘Amar a Deus sobre todas as coisas’. E o que significa amar o meu próximo? O que significa olhar para o meu irmão e saber que nele tem uma sacralidade que não posso violar? Como posso descobrir este convite de Deus de abrir os olhos às pessoas? No dia de hoje, lhe proponho que acabe com os 'achismos' do amor. Por muitas vezes, em nome do amor, nós fazemos absurdos: seqüestramos, matamos, fazemos guerra, criamos divisões. A primeira coisa que Deus precisa curar é o que nós achamos do amor.
O amor nos dá uma força que nem nós mesmos sabíamos que tínhamos. É a capacidade que o amor tem de nos costurar. Quantas vezes olhamos para a objetividade do outro que nos motiva a sermos melhores. É o amor com suas clarezas e suas confusões.
Hoje tem um jeito comum de trazer o que você tem de mais precário em sua vida e dar ao outro. Muitas vezes em nome do amor tratamos as pessoas como ‘coisas’.
Quando Deus entra em nossa vida e entramos na vida de outras pessoas, temos que entrar como Deus, agregando valores. Caso contrário é melhor que eu fique de fora, porque você é um território que merece respeito.
Essa Palavra de Deus é comprometedora. É fazer as pessoas amarem a Jesus pelo seu testemunho, a partir do momento em que você permite transmiti-lo, nesta realidade do dia-a-dia, ao acordar e dormir.
Na passagem da sarça ardente (Ex 3,2ss ) Deus se manifesta em uma árvore que pega fogo mas não é consumida. Esse é o amor de Deus: Quanto mais nós amamos, mais somos consumimos, e se estamos esgotados é porque amamos ‘de menos’. Vamos ficando sem o vigor, mas a sarça queima sem se consumir. O fogo do amor não queima, pois é um fogo que faz outro fogo, e a experiência do amor de Deus é feita pelo amor de um para o outro. Amar o outro é levar prejuízo. Quantas vezes você passou noites inteiras acordadas pelo seu filho? Quanto sono perdido? Isso é por amor.
Você vai saber o que é amor quando você se consome, mas não se esgota. Você nunca vai dizer que está cansado de amar o seu filho. Você está cansada dos problemas causados pelo filho, mas não de amá-lo.
Quantas pessoas que procuram e estão necessitadas do amor, mas em sua busca correndo atrás das micaretas e baladas? A busca do amor está aguçada. Está todo mundo querendo saber o que é o amor, e todos precisando de cura. Quantas pessoas foram amadas erroneamente, trazendo as marcas de um amor estragado.
Quando alguém nos ama com um amor estragado, só se percebe em longo prazo. Como comer uma comida podre que vai dar um problema sério no futuro. Aquele desaforo, aquela traição, aquela mentira e o que você fez com tudo aquilo? Como aquilo repercutiu em você? Aquela experiência ruim que sofreu, onde está?
Quando digo que amo a Deus, estou dizendo no avesso desta frase que amo a mim também. Nenhuma pessoa pode amar a Deus se não se ama. Nenhuma pessoa pode ter uma experiência com Deus se não for pelo amor a si próprio, pelo respeito por si mesmo. O amor a Deus passa o tempo todo pelo cuidado que eu tenho com a minha vida, com a minha história.
Deus nos quer cuidados. Você precisa redescobrir a graça de se amar. Quanto você se ama? O que você ainda espera de você mesmo? Como você ainda se cuida? O quanto você ama a Deus? O que você faz por Ele? Quanto do seu tempo dedica a Ele? As mesmas respostas das primeiras perguntas valem para as segundas. O tempo em que você se dedica a Deus, dedica a você mesmo; pois a obra que Ele quer restaurada é você.
‘Se quiser entrar em minha vida retira as sandálias, pois esse solo é santo’. O amor que tenho a meu Deus é um amor a mim mesmo. Deus quer ser glorificado através de mim. Não haverá a possibilidade de sermos santos se não retirarmos de nós as 'podridões'. Tenha coragem de tirar as histórias do passado que doem e que você as carrega até o dia de hoje.
O alvo deste acampamento, não é o amor que você tem a Deus, mas é o amor que você tem a você mesmo, que é determinante para saber a sacralidade do outro. A gênese da nossa capacidade de amar o outro, está na incapacidade de não me amar. A conversão é um movimento contrário, para amar a si mesmo. É impossível uma pessoa que se ama se drogar, ou deixar uma outra pessoa jogar para dentro de si uma substância letal. Como sou capaz de amar o próximo como a mim mesmo, se ainda não me amo?
Faça caridade a você primeiro. Os seus amigos irão agradecer por você se amar. Quando o amor nos atinge, seremos mais felizes. Vamos experimentar da graça e dar a graça ao outro também. Um povo que se ama é um povo que sabe aonde vai. O amor a Deus e ao próximo é um amor a si mesmo. Eu ainda acredito no que Deus pode em mim. Volte a gostar de você!
(Acampamento da Cura e Libertação dos Afetos e Emoções - Transcrição: Eliziane Alves)
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A mulher simples, mãos calejadas de lida rotineira, mulher que aprendeu a curar as dores do mundo a partir dos meus joelhos esfolados de quedas e estripulias.
Aquela mulher, minha mãe, rosto iluminado por uma labareda que tinha origem no fogão de lenha, trazia consigo o dom de me devolver a calma que a vida tantas vezes insistiu em me roubar.
Aquela cena, mulher, fogão de lenha, panela preta, escondendo a brancura de um arroz feito na hora, é uma das cenas mais preciosas, que meu coração não soube esquecer.
Saudade de mãe é coisa sem jeito, chega quando menos imaginamos: um cheiro, uma melodia, uma palavra, uma imagem e eis que o cordão do tempo, nos convida ao retorno a infância, como se um fio nos costurasse de novo ao colo da mulher que primeiro nos segurou na vida e agora pudesse nos regenerar.
Saudade de mãe é ponte que nos favorece um retorno a nós mesmos. Travessia que nos recorda uma identidade muitas vezes esquecida, perdida na pressa que nos leva.
Saudade de mãe é devolução, é ato que restitui o que se parte; é luz que sinaliza o local do porto, é voz no ouvido a nos acalmar nas madrugadas de desespero e solidão através de uma frase simples:
“dorme meu filho, dorme”
Hoje, nesse dia em que a vida me fez criança de novo; neste instante em que esta cena feliz tomou conta de mim, uma única palavra eu quero dizer
Oh, minha mãe que saudade eu sinto de você!
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Estou ainda sendo feito
E por ter muito defeito
Vivo em constante construção
Sou raro efeito
Não sou causa e a respeito
Da raiz que me fez fruto
Desfruto a divina condição
Em noites de céu apagado
Desenho as estrelas no chão
Em noites de céu estrelado
Eu pego as estrelas com a mão
E quando agonia cruza a estrada
Eu peço pra Deus me dar sua mão
Sou seresteiro
Sou poeta, eu sou romeiro
Com palavra, amor primeiro
Vou rabiscando o coração
Vou pela rua
Minha alma às vezes nua
De joelhos pede ao tempo
A ponta do seu cobertor
Em noites de céu apagado
Desenho as estrelas no chão
Em noites de céu estrelado
Eu pego as estrelas com a mão
E quando agonia cruza a estrada
Eu peço pra Deus me dar sua mão
Vou pelo mundo
Cruzo estradas, num segundo
Mundo imenso, vasto e fundo
Todo alojado em meu olhar
Sou retirante
Sou ao rio semelhante
Se me barram, aprofundo
Depois vou buscar outro lugar
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E foi então, que no meio da multidão alguém se destacou. Alguém que chorava dominado pela emoção que eu desconhecia a razão. Prestei atenção. Um fração de segundos. E foi então que pude ouvir de seus lábios: "Padre Fábio, eu te amo. Você salvou minha vida!"
Não, não havia som naquelas palavras. O que havia era o grito da vida sussurrado no meio do grito da multidão.
Um rapaz desconhecido, rosto perdido na multiplicidade de rostos. Plural que ficou singular, pela força de olhares que se encontraram, por acaso.
Eu pensei que já sabia a razão do meu Hosana, mas não. A minha razão seria revelada, somente ao final de tudo. Eu que pensei que já levara comigo as causas de meus louvores, de repente, ali, fui surpreendido pela voz de Deus nos lábios silenciosos daquele moço.
Logo em seguida eu soube a razão da emoção. O rapaz era alcoolatra e o entrou em processo de recuperação depois que uma palavra pronunciada por mim o atingiu, há algum tempo atrás.Ele veio de Foz do Iguaçú e trouxe sua família para celebrarem juntos esta graça. Olhei seus filhos e esposa e agradeci a Deus pelo bem acontecido.
Salvar a vida de alguém é um jeito bonito que a gente tem de salvar a vida da gente. Eu não posso negar que fiquei mais padre a partir daquela frase.
Eu tomei posse, mais uma vez, da responsabilidade de ser portador da palavra redentora, da palavra que quebra as cadeias das escravidões.
O Hosana não terminou em mim. Ele continua ressoando. E enquanto eu viver, quero a graça de me recordar daquele acontecimento. A multidão, o refrão entoado por todos, e no meio de tudo isso a frase sem som, o discurso do silêncio, a vida e seu poder de dizer muito em um curto espaço de tempo.
Ao longo deste ano eu escutei muitas coisas que me fizeram crescer, mas nada pode ser comparado ao que Deus fez em mim através daquele rapaz.
Eu tenho vivido muitas graças de poder ouvir frases semelhantes, mas aquele momento foi por Deus preparardo, eu sei disso.
Peço licença a todos vocês para mandar a ele o meu recado simples, mas cheio de gratidão e carinho...
Meu amigo, você que passou pela minha vida, de forma tão rápida e sincera...
você que eu não sei o nome...
Obrigado por ter gritado no meu ouvido a razão do meu Hosana.
( Pe. Fábio de Melo )
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Era um corpo de dor, de menstruadas esperanças, de saudades e partos. Corpo de mãe , corpo de cumprir oficio de curar joelhos esfolados, de dar banhos que tinham o poder de lavar corpos e almas num mesmo acontecimento. Corpo de amamentar filhos que crescem.
Aquela mulher e aquelas manhãs de dezembro. As recordações de seu tempo de menina, pobreza reconhecida, trazida na cara e denunciada pela moldura de olhos que não sabiam mentir.
O plantio programado, compromisso que nem mesmo a dor acontecida nas recentes horas poderia adiar, tinha ares de ritual religioso. A sementeira ao lado, moldada numa caixa de papelão resistente, sobre o canteiro que nasceu de suas mãos pequenas, esperava pela oportunidade de cumprir no tempo o destino de dar continuidade à obra da criação.
Morrer e viver são atos que se conjugam sem pressa. A mulher sabia de tudo isso. As mudas miúdas também. Dotadas de sabedoria vegetal, cresciam ao seu tempo com a mesma simplicidade que é própria de quem não procura outro destino senão o seu.
Aquela mulher sabia mais. As mudas não mudam. São sempre as mesmas desde o tempo de sua mãe. Oficio aprendido que se estende no tempo, feito consumação de uma despedida que se cumpre aos poucos, bem aos poucos.
Mudas de alface estão carregadas de sentido. Nelas, prepara-se o futuro que afugenta a fome, traz vibrações ao modo de carecer.
Recordo-me com saudade. O tempo era de chuvas. Jabuticabeiras explodiam.
Pequenos frutos pendurados em seu corpo de árvore-mãe, tal qual a minha mãe e seus meninos pendurados na cintura, entrelaçados nas pernas e puxando seus braços.
Dezembro tinha cores e histórias diferentes. Vitrines iluminadas, cartões de ocasião sendo preparados pela minha irmã, para que mesmo com simplicidade pudéssemos desejar votos de felicidades.
Presépio sendo retirado da caixa, árvores coloridas de bolas vermelhas, anunciando que nossa pobreza seria ainda mais exposta. Mas não havia problema. Nossa árvore, mesmo tão pobre, já era nossa alegria. As jabuticabeiras nos curavam de tudo...
Minha mãe e sua capacidade de replantar o mundo a partir de mudas de alface era o símbolo mais vivo de nosso Natal. Com seu jeito simples e hábitos rotineiros, ela condensava todas as virtudes que o acontecimento nos sugeria. “O menino Jesus é quem merece presente neste dia!”, ensinava-nos como se quisesse modificar a ordem do mundo. E assim acreditávamos.
Nossos presentes eram poucos. Quase nenhum. Só mesmo para não passar em branco, mas o mais importante nós não deixávamos de receber. O sorriso farto, a oração em família, a missa do galo e o nosso Natal já estava completo.
Aquela mulher nos fazia esquecer o que não tínhamos. Transplantava-nos, como fazia com as mudas de alface. Deixávamos o chão estreito da sementeira e caiamos com nossas raízes nos canteiros fartos da simplicidade que ela sabia construir.
E assim era o nosso Natal. Um acontecimento para nunca mais esquecer.
A você, que ao longo deste ano buscou ser mais feliz a partir de minhas palavras, aproveito para desejar um Natal cheio de alegrias, simplicidade e acontecimentos que mereçam ser lembrados.
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Quero que minha árvore seja feita de silêncios. Silêncios que façam intuir felicidade, contentamento, sorrisos sinceros.
Neste Natal não quero mandar cartões. Tenho medo de frases prontas. Elas representam obrigação sendo cumprida. Prefiro a gratuidade do gesto, o improviso do texto, o erro de grafia e o acerto do sentimento. A vida é mais bonita no improviso, no encontro inesperado, quando os olhares se cruzam e se encontram.
Quero que minha árvore seja feita de realidades. Neste Natal quero descansar de meus inúmeros planos. Quero a simplicidade que me faça voltar às minhas origens. Não quero muitas luzes. Quero apenas o direito de encontrar o caminho do presépio para que eu não perca o menino Jesus de vista. Tenho medo de que as árvores muito iluminadas me façam esquecer o dono da festa.
Não quero Papai Noel por perto. Aliás acho essa figura totalmente dispensável! Pode ficar no Polo Norte desfrutando do seu inverno. Suas roupas vermelhas e suas barbas longas não combinam com o calor que enfrentamos nessa época do ano. Prefiro a presença dos pastores com seus presentes sinceros.
Papai Noel faz muito barulho quando chega. Ele acorda o menino Jesus, o faz chorar assustado. Os pastores não. Eles chegam silenciosos. São discretos e não incomodam...
Os presentes que trazem nos recordam a divindade do menino que nasceu. São presentes que nos reúnem em torno de uma felicidade única. O ouro que brilha, o incenso que perfuma o ambiente e a mirra com suas composições miraculosas.
O papai Noel chega derrubando tudo. Suas renas indisciplinadas dispersam as crianças, reiram a paz dos adultos. Os brinquedos tão espalhafatosos retiram a tranquilidade da noite que deveria ser silenciosa e feliz. O grande problema é que não sabemos que a felicidade mais fecunda é aquela que acontece no silêncio.
É por isso que neste Natal eu não quero muita coisa. Quero apenas o direito de recolher o pequenino menino na mangedoura... Quero acolhê-lo nos braços, cantar-lhe canções de ninar, afagar-lhe os caboelos, apertar-lhe as bochechas, trocar-lhe as fraldas para que não tenha assaduras e dizer nos seus ouvidos que ele é a razão que me faz acreditar que a noite poderá ser verdadeiramente feliz.
Neste Natal eu não quero muito. Quero apenas dividir com Maria os cuidados com o pequeno menino. Quero cuidar dele por ela. Enquanto eu cuido dele ela pode descansar um pouquinho ao lado de José.
Ando desfrutando nos últimos dias o desejo mais intenso de que a vida vença a morte.
Talvez seja por isso que ando desejando uma árvore invisível. O único jeito que temos de vencer a morte é descobrindo a vida nos pequenos espaços. Assim vamos fazendo a substituição. Onde existe o desespero da morte eu coloco o sorriso da vida.
Faça o mesmo!
Descubra a beleza que as dispersões deste tempo insistem em esconder. Fecha a sua chaminé. Visita que verdadeiramente vale à pena chega é pela porta da frente.
Na noite de Natal fuja dos tumultos e dos barulhos. Descubra a felicidade silenciosa. Ela é discreta, mas existe! Eu lhe garanto!
Não tenha a ilusão de que seu Natal será triste porque será pobre. Há mais beleza na pobreza verdadeira e assumida que na riqueza disfarçada e incoerente. O que alegra um coração humano é tão pouco que parece ser quase nada. Ouse dar o quase nada. Não dá trabalho, nem custa muito...
E não se surpreenda, se com isso, a sua noite de Natal tornar-se inesquecível.
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O ciclo da história nos direciona para que não nos percamos das funções. São as regras da vida. E o melhor é obedecê-las.
Tenho pensado muito no valor dos pequenos gestos e suas repercussões. Não há mágica que possa nos salvar do absurdo. O jeito é descobrir esta migalha de vida que sob as realidades insiste em permanecer. São exercícios simples...
Retire a poeira de um móvel e o mundo ficará mais limpo por causa de você. É sensato pensar assim. Destrua o poder de uma calúnia, vedando a boca que tem ânsia de dizer o que a cabeça ainda não sabe, e alguém deixará de sofrer por causa de seu silêncio.
Nestas estradas de tantos rostos desconhecidos é sempre bom que deixemos um espaço reservado para a calma. Preconceitos são filhos de nossos olhares apressados. O melhor é ir devagar.
Que cada um cuide do que vê. Que cada um cuide do que diz. A razão é simples: o Reino de Deus pode começar ou terminar, na palavra que que escolhemos dizer.
É simples...
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Eles estão por todos os cantos do Brasil. Cobertos por uma vestimenta bonita, um desconserto concretizado em algodão cru, tingido em cores que nos lembram que é momento de deitar os joelhos no chão para que possamos ficar na altura dos miseráveis do mundo. Vestes que se diferenciam à distância, no meio de uma multidão cheia de brilhos artificiais, esmaltes, batons e cores abundantes. Vestes que emolduram almas que sorriem à sua maneira, que são felizes nos subterrâneos do mundo, lá onde a Eucaristia ainda preserva o sabor do sacrifício, e é celebrada entre joelhos esfolados, rostos marcados pela vida dura e pelo abandono.
Eles são meninos e meninas que aprendi a amar. Aonde vou gosto de dizer que são um dos sinais proféticos mais eloqüentes que a Igreja dos nossos tempos viu nascer. Eles ainda preservam na alma uma pureza que está diretamente ligada ao contexto de Jesus e sua primeira comunidade. Coisa de quem não estudou muita teologia, senão aquela que a oração ensina, e que a fé comprova na prática. Não, eles não são mestres em muitas ciências. Nem precisam ser. O carisma que os move vem de um homem raro, que na observância de um outro homem raro, fez ponte entre Assis e o mundo.
A ponte é longa, bonita e cheia de simplicidade. Estes meninos e meninas de riso fácil e de ternura intensa são os elos que sustentam este instrumento de travessia. Gente humana, gente que sofre saudade de pai, de mãe, de cama quente, presente de natal, mas que resolveu dominar esta saudade com o único objetivo de dar ao mundo o coração de Deus, por meio de seus gestos simples.
Gente que troca de nome. Resgate de uma tradição religiosa que nos lembra que depois do encontro com Jesus nós nos transformamos em outros. Mística que faz falta, que foi esquecida na expressão de um cristianismo de formalidades e obrigações.
Eles são os filhos de Roberto, eles são os filhos de Assis. Franciscos, Claras, Bernardos, Arimatéias, pessoas que procuram pelas ruas do Brasil aqueles que não gostamos de encontrar. Gente dos bastidores, da adoração que não causa alarde, da vela acesa, da solidão acompanhada. Gente que eu admiro e gostaria de ser igual, mas não consigo.
São almas peregrinas, destinadas a amar as tristezas do mundo e sobre elas estenderem a toalha do santo sacrifício do altar. Almas do Eterno enamoradas. Frutificações generosas que rompem os asfaltos das nossas sociedades pagãs.
Aprendi ao longo da minha vida que a simplicidade é a expressão mais aprimorada da beleza. Por isso eu digo sem medo de errar, que a Toca de Assis é uma tradução fiel da beleza de Deus no mundo.
Continuem assim. Vestidos de algodão cru, sorridentes, adoradores, pés descalços, tonsuras nas cabeças e corações prostrados diante do Altíssimo. Saibam que em cada irmão recolhido e cuidado, Deus proclama mais uma vitória do amor, por meio de vocês. Em cada ferida curada o mundo inteiro está sendo curado também.
Quero sempre poder abraçá-los. Quero sempre poder encontrá-los. Quem sabe assim, um pouco deste hábito venha morar dentro de mim.
Toca de Assis, sorriso dos santos! Toca de Assis, sorriso da Igreja.
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Oh minha gente, como é bom a gente ser amado por pessoas que não se cansam de nós. Como é bom a gente ser olhado por pessoas que sabem esperar pelo tempo que a gente precisa pras coisas porque só quem espera sabe conquistar.
Eu costumo dizer e gosto de dizer sempre, que laços de parentesco não são certezas de que já estamos conquistados. O que faz diferença nesta vida é a conquista de todo dia e de toda hora.
Ou você conquista os que você ama hoje ou daqui a pouco você é apenas parente dessas pessoas e nem sempre a gente ama os parentes que tem.
As pessoas que fazem diferença na vida da gente são aquelas que nos conquistaram e onde é que mora a conquista? Na capacidade de olhar o outro e de permitir que ele seja ele e de interferir na vida dele pra que ele possa crescer com a nossa presença e com o nosso jeito de ser na vida dele.
Aí está a beleza de acreditar no amor e na misericórdia de Deus. Saber que esse Deus nos olha nos olhos e que sabe do nosso tempo e que espera por nós.
Às vezes, nós não conseguimos viver a misericórdia na nossa vida por causa disso, a gente não sabe esperar e às vezes com nosso amor machucado, a gente impede o outro de ser de Deus.
Em nome do amor, entramos na vida do outro e fazemos um estrago porque não sabemos ser para ele aquilo que Deus seria se estivesse no nosso lugar.
Deus espera sempre. A gente, não. A gente desanima fácil uns dos outros, não é verdade?
Eu já desanimei de tanta gente. Você já desanimou de tanta gente. E aí, como é que fica a misericórdia na vida daquela pessoa que a gente desanimou dela? Se ela não tem outro recurso, não chove o maná no quintal da vida dela, não há mares abrindo.
O milagre mais bonito e concreto que nós podemos realizar na vida do outro é amor humano, esse sim abre mares, esse sim faz chover maná, outra coisa não.
Acontecem coisas extraordinárias demais na sua vida, na minha não. O extraordinário, sabe o que que é?
É eu olhar pras pessoas que me amam e perceber que elas extraem de mim a minha melhor parte, isso sim é extraordinário porque eu vou sendo ressuscitado aos poucos e o outro quando não desanima de mim, coloca em mim um rastro de Deus. Porque quanto mais eu amo e humanamente posso trazer o outro pra perto de mim, maior é a capacidade que Deus terá, maior é a possibilidade que Deus terá de agir na vida daquele que estamos acolhendo.
Eu sei que você tem mil e uma razões pra não acreditar mais em tantas coisas.
Eu sei que você tem razões pra você desanimar de quem você é. Eu sei que você tem razões pra desanimar dos seus sonhos, mas eu gostaria de lhe pedir: me deixa ser Jesus pra você agora.
Vai lá, leve isso a sério, me deixa ser Jesus pra você agora.
Eu iria dizer apenas uma frase: ELE AINDA ESPERA POR VOCÊ! ELE AINDA NÃO DESISTIU DE VOCÊ!
Porque Ele tem razões de sobra pra lhe amar. Se eu não tenho razões pra acreditar em você, Ele tem razões de sobra.
E se Ele acredita em você, quem sou eu pra duvidar agora!?
Se Ele ainda espera por você, quem sou eu pra não esperar também e dizer:
“Que Eu espero por você! Não me canso de esperar! A porta aberta vou deixar, se quiser pode voltar. E Eu espero por você! E não me canso de esperar! Meu coração se alegrará quando você se aproximar.”
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Sou um homem que nem sempre sabe esperar na fila, que perde a paciência com as meninas do Macdonalds...
Sou um homem que não sabe viver longe da poesia, que ama os poetas, os loucos, os avessos, os contrários.
Sou um homem que se emociona com pequenas coisas, que ri de si mesmo, que ri dos outros, que ri de Deus, sobretudo quando pára pra pensar naqueles que Ele prefere, que Ele confia.
Sou um homem que gosta de roupas bonitas, de ficar cheiroso, de trocar de roupa de cama todo dia, de deixar a cama esticadinha e de sorvete de menta com chocolate.
Sou um homem que gosta de amar as pessoas, ainda que no limite do meu amor, porque acredito que essa vida é curta demais para eu perdê-la com rancores desnecessários.
Sou um homem que já sofreu muito, mas que também já colheu muitas alegrias, e que é cheio de contradição.
Eu não sou perfeito. Sou só um homem que desejou ser padre. E sou.
Só queria anunciar aos desinformados de plantão que eu continuo aqui.
Se outros desistiram, eu não.
Eu ainda continuo não dando sossego pra Jesus. Continuo andando feito um louco atrás Dele, porque eu não saberia ser nada do que sou se eu não estiver grudado Nele.
Se em algum momento alguém lhe perguntar se é verdade que eu desisti, se eu me casei com uma atriz da Rede Globo, peçam pra eles lhe informarem o nome da atriz...
Quem sabe assim eu possa dar um jeito de avisá-la, que não continue esperando por mim no altar, e que se precisar de um padre para o casamento, eu poderia presidir a celebração...
Afinal, padre serve também pra isso!
Hoje eu não desejo muita coisa. Gostaria apenas de ser padre sem receber os constantes insultos que as fofocas podem provocar no coração de quem é vítima delas.
Agora, se houver algum pecado nessa confissão, eu lhe peço sua absolvição de amigo. É só isso! O resto eu não sei dizer, só sei sentir.Amém.
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Com ela eu purifico a minha teologia, volto ao ponto mais simples do verbo acreditar.
Estar em Belém, por ocasião do Círio de Nazaré fez-me voltar à infância. Ser menino de novo, deixar-me conduzir pelas mãos de minha mãe, que sempre me levava para conhecer as realidades sagradas. Talvez seja por isso que a vida não pode retirar a sacralidade do que compreendemos por mãe.
Vi o povo arrastando a corda, como se a berlinda onde vai a pequena imagem da Virgem de Nazaré, dependesse daquele esforço para prosseguir.
A corda avançava no rítmo das dores e do esforço da multidão. O calor intenso, os rostos queimados pelo sol, as lágrimas brotando sem razões claras, tudo compunha um quadro que me fez pensar na bondade, que todo cristão deve perseguir.
Foi então que me senti um miserável especial. Um miserável que tem mãe. Recordei-me dos desafios que enfrentamos para alcançar a dignidade que nos constitui, e o respeito que deveria marcar nossas relações. Pensei que na metáfora da corda está presente a realidade da vida.
A corda é pesada...
E por isso necessita do remanso da multidão para que não pare.
Pensei no quanto aquela devoção simples pode nos ensinar a respeito do significado do cristianismo. Ainda que a multidão fosse feita de pessoas diferentes, nela não havia concorrentes, mas todos queriam levar a corda e a berlinda ao seu destino final.
No fundo, todo mundo quer acertar e ser feliz. As dores nos diferenciam, as opiniões também, mas a corda da vida é a mesma.
Portanto, hoje, ainda sob o impacto do Círio de Nazaré sobre o meu coração, eu proponho que a gente continue avançando com a corda que estamos conduzindo. Ainda que tenhamos diferenças entre nós, que prevaleça o desejo de respeitar o andar de cada um.
No mais, todos estamos sob a mesma benção e sob a mesma proteção. Cada um no seu canto, compõe o verso que lhe é possível. Unidos no mesmo desejo de acertar, ouso abençoar a todos neste dia, em que em Belém do Pará é Círio outra vez.
Com carinho e benção,
Pe. Fábio de Melo.
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Perseguir o silêncio é o mesmo que perseguir a sabedoria. Os sábios falam menos e escutam mais. Eles não se apressam em dar nomes às realidades. Eles demoram os olhos na realidade e sabem aprecia-la sem pressa. Olhar devagar é um dom que desejo possuir.
O olhar apressado é a matriz de todo preconceito. Acho que vi, mas não vi. E o pior, digo que vi, sem ter visto.
Jesus só olhou o mundo sem pressa. E por isso Ele era capaz de ver o que ninguém via. Olhou Madalena e não viu a prostituta que todos viram. Viu a mulher, viu o ser humano que precisava ser resgatado dos olhares apressados que a condenavam.
Olhou Pedro e não viu somente o pescador. Viu o homem que poderia vir a ser. Viu a eloqüência das palavras aprisionadas em seu “não saber dizer”. Viu o profeta escondido detrás da timidez e do medo. Ultrapassou os excessos da vida errante e enxergou o santo que ali estava adormecido.
Eu não sei como anda o seu olhar sobre si mesmo. Não sou conhecedor da pressa ou da calma do seu olhar. Uma só coisa eu sei, e sobre isso quero lhe dizer. Há em você um universo de verdades a ser descoberto. Há uma humanidade linda que ainda precisa passar pelo processo do florescimento.
Não sabe por onde começar? Eu lhe dou uma dica. Comece a prestar atenção no jeito com você se enxerga, no jeito como você se trata, no jeito como você se interpreta. Não aloje em seu coração sentimentos que sejam contrários à sua felicidade. Não deixe demorar dentro de você o que na vida não valeu à pena. Expulse de sua mente tudo o que for contrário ao que Deus espera de você.
Cultive esta certeza: o olhar de Jesus já lhe atingiu! Ele confia profundamente em tudo o que você ainda pode ser. Não se prenda aos seus fracassos. Eles não são nada perto de tudo o que Deus preparou para o seu futuro. Derrotas podem ser fontes de esperanças...
Veja o avesso de suas inseguranças. Há uma coragem que você precisa enxergar. Ela é necessária como o pão de cada dia.
Hoje é dia de olhares demorados...
Veja em você o que Jesus já viu. Lance sobre você um olhar amoroso. É disso que você está necessitando.
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Somos homens e mulheres em processo de feitura, estamos sendo feitos aos poucos, e é maravilhoso a gente pensar isso, sabe por quê? Quando a gente compra uma casa que está pronta, você corre o risco de não gostar de um monte de coisa nela, não é verdade? Ou então, você pode acertar e comprar a casa dos seus sonhos, mas que não foi feita por você. A gente sempre vai olhar para aquela casa, que é a nossa, mas a gente sempre vai imaginar um detalhe que poderia ter sido diferente porque a casa não foi construída por nós. Olha que maravilha a gente poder pensar que a nossa vida é uma casa que é construída por nós e olha que até mesmo os outros que participam da nossa construção, eles só participam porque a gente deixa, um amigo trouxe um tijolinho ou trouxe um quadro no momento da decoração, seu amigo vem e traz um quadro para fazer parte da sua casa.
Essa parede não é de pedra, esse quadro não é de concreto. Nós estamos falando de coisas da alma. Estamos falando dessa possibilidade que nós temos de ser uma casa espiritual, aquela que a gente não pode ver com os olhos, mas que nós podemos percebê-la com os olhos. Não vejo, mas percebo. A sua casa, mesmo que ela cause susto em muita gente, ela pode ser diferente porque essa construção está nas suas mãos, você está sendo feito. Deus está nos dando os instrumentais todos os dias para que a gente possa se refazer, para que a gente possa se reconstruir.
Hoje, na casa da sua vida, Deus nos dá a oportunidade de derrubar paredes, de jogar pelo chão aquilo que não nos agrada e começar tudo de novo, para que seja uma casa bonita, não só aos nossos olhos, mas também agradável aos olhos daqueles que passam por nós. Como que a gente faz isso? Construindo aos poucos? É bom que seja assim. Uma construção que é feita aos poucos, a gente tem condições de enxergar diferente porque você vai e observa os detalhes. Na correria é complicado, na correria a gente corre o risco de erguer uma parede no lugar errado porque você não teve tempo de pensar o lugar certo para aquela parede.
Às vezes na pressa de feitura, a gente constrói paredes no lugar errado, às vezes nós construímos muros onde não podemos e nos separamos de nós mesmos e até mesmo nos separamos de quem a gente ama. Pode ser que hoje você vá descobrir que há um muro nessa sua casa separando você daqueles que você ama. Qual é esse muro? Você pode descobrir, e sabe o que você faz com esse muro? Joga ele no chão porque a casa é sua, quem manda é você. Quem disse que você tem que morrer com este muro te incomodando? Quem disse que você tem que morrer com todas essas realidades humanas atrapalhando você a ver o outro lado.
Há muros espirituais que nós corremos o risco de colocar ou então quadros desagradáveis... uma sala linda e de repente você percebe que naquela sala tem um quadro que não combina em nada com as cores da sala que você escolheu. O que tem que fazer? Ter coragem de tirar o quadro e jogar fora, dizer ‘olha, eu agradeço muito, mas esse quadro não está me ajudando’. Às vezes, existem pessoas que entram na nossa vida e começam a colocar detalhes em nós que não combinam com a gente e a gente, por falta de coragem, vai permitindo que aquilo vá ficando e daqui a pouco você se sente sufocado.
É o que meu amigo hoje reclamava para mim. Aquilo que ele havia feito de errado era como se fosse uma moldura que ele tinha permitido ser colocada na sala dele e que agora ele não conseguia ficar sentado na sala que ele tanto ama porque tinha um quadro atrapalhando ele, tinha um quadro retirando a paz, um quadro que não tinha anda a ver com a mobília da sala dele. Defeito é isso, é aquilo que nós insistimos em ficar, em permanecer e que de repente a gente está retirando a paz da nossa casa, da nossa casa interior, está retirando a graça da nossa vida porque nós estamos colocando detalhes que não fazem bem. Naquele momento você me ajudou a expulsar aquele quadro da minha sala e depois que eu tirei aquele quadro, veio uma paz muito grande. E às vezes, sabe o que é retirar o quadro? É pedir perdão a alguém. Retire o quadro do rancor, eu não quero que o rancor continue em mim. Eu não quero que esse rancor continue sendo determinante na minha vida.
Hoje, na casa da sua vida, na sala da sua vida, há muitos detalhes que são seus, quem sabe hoje...a gente possa esbarrar em algum detalhe que possa lhe ajudar a colocar em ordem esse lugar que você tanto ama.”
“Tu és bem mais que os seus erros do passado.”
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A paixão dura o tempo que você deixar a luz apagada. Amor cego leva pro buraco mesmo. O encontro só acontece no momentos em que a gente acende as luzes. Paixão dura o tempo que a gente deixa a luz apagada, o tempo que a gente não tem coragem de olhar pro outro como ele é e o Amor só vai ser legítimo se essa paixão passar, esse tempo de espetáculo e artificialidade passar e der lugar a um sentimento tranquilo que lhe condições de ver o que o outro tem de melhor e o que outro tem de pior e mesmo assim você continuar preferindo estar ao lado dele. E aí cai naquela história "eu procuro uma pessoa ideal". Não, você não tem que procurar a pessoa ideal, a pessoa ideal só existe aqui. Você tem que procurar é a pessoa certa, a pessoa certa existe e está em algum lugar deste mundo.
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Você já reparou que a gente não deixa a criança chorar? Já reparou que quando o recém-nascido chora, nós fazemos de tudo para calar a boca dele. Fazemos uma série de "cara feia" para ver se a gente cala a criança, para tentar espantar a fragilidade.
Nós, humanos, temos uma dificuldade imensa de lidar com a fragilidade do outro – ainda que seja filho da gente. Nós gostamos é de todo mundo feliz. Não estamos preparados para encarar a fragilidade. Parece que a nossa educação está sempre voltada para nos revestir de uma coragem que nos faz esquecer o limite.
Ter coragem é descobrir onde está a nossa fragilidade e ali trabalhar com um empenho um pouquinho maior. É não desconsiderar o que temos de bom, mas é também colocar atenção naquilo que ainda temos que melhorar. Estamos em processo de feitura. Não estou pronto, eu não sou perfeito, estou por ser feito, estou sendo feito aos poucos. E no processo de ser feito aos poucos eu vou descobrindo onde é que dói este espinho. Este espinho muda de lugar. Quanto mais uma pessoa está aperfeiçoada no processo de ser gente, maior é a facilidade de conhecer limites.
Para você retirar um espinho, às vezes, é preciso deixar inflamar. É como se o seu corpo dissesse: “Isso não me pertence”. De qualquer jeito, nós temos que tirar aquilo que não nos pertence. Tem algumas inflamações do espírito, da personalidade que tem gente que é tão aborrecida que a gente não pode nem encostar. São aquelas inflamações que se alastram.
E aí é que entra a grande contribuição do Cristianismo, numa proposta antropológica. Porque Deus não quer que você seja um anjinho na terra, mas que você deixe de ser inflamado. Ele quer te mostrar as inflamações para que você lute.
Cara feia, arrogâncias, isso é complexo de inferioridade. Sabe qual é o espinho? O medo, a insegurança.
Você já fez a experiência de viver uma palavra que te fez vazar em tudo o que estava estragado? Língua afiada quer dizer: deixar toda a inflamação que está dentro de nós vir para fora.
Ter condições de vazar aquilo que antes a gente desconhecia é admitir e reconhecer que somos frágeis. A pior ignorância é aquela que finge que sabe! Temos medo de mostrar que não aprendemos, que somos frágeis. Quantas vezes na nossa vida, por medo, perdemos a oportunidade de aprender.
Às vezes, por medo de expor a nossa fragilidade, porque parece que o mundo de hoje se esqueceu de mostrar a cultura do esforço que se fez para chegar aonde chegamos, perdemos o direito de chorar. E muitas vezes choramos e não sabemos o porquê estamos chorando.
O ensinamento de Jesus é sempre o avesso do avesso. Quer ser santo? Assuma que você é fraco. Muitas vezes, neste processo de se conhecer, a gente sangra. E nós precisamos sangrar. Um dos maiores poetas da música diz isso.
Quantas vezes você não se viu traduzido em uma canção de alguém que teve a coragem de sangrar, não teve medo de mostrar as próprias fragilidades.
Nós somos todos iguais. Nós, padres, somos todos iguais. Não adianta a gente fingir que é forte, ou ficar fingindo que não sente e que não tem medo. Eu não sei se você tem mais de cinco pessoas que conhecem os seus segredos. Para quantas pessoas você teve coragem de sangrar? Pessoas que te enxergam por dentro são raras.
Conversão é isso. É você educar o seu filho para ele poder te contar onde estão os espinhos. O espinho não é o defeito, mas é a seta que nos mostra onde temos que trabalhar para ser melhor.
A vida vai perdendo a graça porque não nos deixamos sangrar. A gente sangra melhor nos momentos de intimidade, onde a gente tem coragem de tirar a couraça. É muito melhor a gente admitir que tem medo. Para as pessoas ,é sempre doloroso ter que tirar os espinhos, de ver vazar as inflamações.
Há tantas situações que nos deixam com o “coração na boca”. Às vezes, nós colocamos muito mais atenção naquilo que as pessoas estão achando de nós, do que no que nós pensamos de nós mesmos.
Examine-se, você é uma pessoa que consegue levar o outro à cura. Em última instância, o que vai sobrar de nós é a nossa vontade de amar. Vamos descobrir o que hoje em nós está "infeccionado", porque é preciso sangrar, é preciso reconhecer-se frágil.
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Uma das características da infância é a incapacidade de dividir coisas. A maturidade acontece quando tomamos posse do que nós somos, para aí, então, poder nos dividir com os outros. Isso faz parte do processo de maturidade; um processo lento, chato e demorado, no qual não podemos queimar etapas.
Uma criança passa por um momento de amadurecimento a partir do momento em que começa a brincar. Você começa a identificar a maturidade dela a partir do momento em que ela consegue perceber as regras de um joguinho.
Nascemos amando de um modo contrário, isto é, querendo ter posse dos outros. Essa é a forma de amar da criança, pois ela não consegue pensar de maneira diferente. Ela não consegue entender que o outro não é dela. E quantas pessoas já adultas ainda pensam assim, trata-se da incapacidade de amar, falta-lhes maturidade.
Amar alguém é viver o exercício constante de não querer fazer com que ele seja como nós gostaríamos que ele fosse. A experiência de amar e ser amado é acima de tudo a experiência do respeito. Se você não consegue lidar com os limites dos outros, é porque você não consegue lidar com os seus limites. Eu posso até admirar no outro o que eu não tenho em mim, mas eu não tenho o direito de fazer dele uma representação daquilo que me falta. Toda vez que eu quero buscar no outro o que me falta, eu o torno um objeto. Isso não é amor, isso é coisa de criança.
Todos os encontros de Jesus levam à implantação do Reino de Deus. Mas só pode implantar esse reino quem é adulto e já entende que só se começa a amar a partir do momento em que nós não queremos mudar a quem amamos.
Jesus não tinha o que temer porque era puramente bom, por isso, contagiava os que estavam ao seu lado. Geralmente quando tememos alguém ruim ao nosso lado é porque nos reconhecemos naquela pessoa. Na maturidade de Jesus você encontra a capacidade imensa de amar o outro como ele é.
Quando falamos em amar os outros, podemos perceber o quanto deixamos de ser crianças. Por essa razão, devemos nos questionar a todo o momento quanto à nossa maturidade.
A santidade começa na autenticidade. Por isso, Jesus nos pede para sermos como as crianças, que são verdadeiras e simples. É isso que devemos manter da nossa infância e não a forma de possuir as coisas para si.
Você tem condições para perceber sua própria maturidade. A maturidade nos faz perceber que não podemos mudar os fatos. As pessoas imaturas querem modificar os fatos; por outro lado, as pessoas maduras deixam que os fatos as modifiquem. Um imaturo ganha um limão e o chupa fazendo careta. O maduro faz uma limonada com o limão.
É o processo de maturidade na amizade que nos leva ao verdadeiro encontro com as pessoas que estão ao nosso lado. Muitas vezes, os nossos relacionamentos de amizade são verdadeiros fracassos porque somos imaturos. Amigos não são o que imaginamos. Eles têm todos os defeitos, mas fazem parte da nossa vida e não os trocamos por nada deste mundo. Isso porque não temos medo dos defeitos dos outros, pois sabemos que tais defeitos não serão espelhos para nós. Nós seremos para nossos amigos um instrumento de Deus para que eles superem essas limitações.
( Texto produzido a partir da homilia do Pe. Fábio de Melo no Acampamento PHN de 07/07/2007 )
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Tudo aquilo...e ela fazia sozinha, colocava uma roupa de trabalho, e ela se ocupava num determinado momento do dia, já era uma tarefa diária: ela ia para o terreno, carpinava o que tinha que carpinar, recolhia as pedras, separava os cacos de vidros, separava os lixos que precisavam ser jogados fora, os que teriam de ser enterrados. Enfim, com o lixo que ela retirou dali, ela começou a transformar o terreno baldio. Começou, no primeiro momento, a reunir as pedras, fazer pequenos caminhos naquele terreno e nesses caminhos ela foi plantando jardins. Depois que tudo ja havia sido retirado e que ela ja tinha o terreno limpo, ela começou a fazer a plantação de um bonito jardim ali naquilo que era um lugar antes preparado, escolhido pela vizinhança para ser depositado todo o lixo. A Sueli, diante de uma dificuldade, teve a oportunidade e a feliz idéia de transformar o que antes a infelicitava, num lugar aprazível aos olhos. E o mais interessante, no processo de retirar o lixo daquele lugar, la descobriu no coração dela, uma mulher que ela não sabia que tinha. O que todos nós sabemos é que um trabalho manual tem o poder de provocar dentro de nós algumas mudanças ou até mesmo fazer vir pra fora uma pessoa que a gente tem dentro de nós mas que a gente corre o risco de morrer sem saber que possuia. E ali, naquela experiência de retirar pedras, de plantar flores no lugar onde era de lixo, ela fez uma bonita experiência de Deus e de felicidade. E no momento em que ela contou isso para nós, na nossa sala de aula, foi visível a emoção de muita gente que ao ouvir aquela história também retirou uma lição daquilo que ela havia vivido.
As vezes na nossa vida é assim, nós não estamos felizes porque reclamamos dos terrenos baldios que estão do nosso lado. As vezes nós colocamos a culpa da nossa infelicidade nos lugares desertos da nossa existência onde o outro jogou o seu lixo e a gente acaba se acostumando a conviver com esse lixo, quando na verdade o que a gente precisa fazer é tomar a iniciativa de limpar a nossa vida, de limpar aquilo que está do nosso lado para que a gente possa voltar a continuar o dom de ser feliz. Uma coisa é certa: cada um de nós carrega o dom de ser capaz e de ser feliz mas a gente corre o risco de morrer sem saber. Se a gente se entrega, se a gente se acostuma a conviver com os ratos, com as baratas e com o lixo, daqui a pouco a gente já se identifica com eles e a gente não sabe mais viver fora do lixo. Vida espiritual é assim também, se a gente não se cuida,a gente corre o risco de ter uma vida extremamente desagradável e a gente se acostuma a ser assim, vamos vivendo de sentimentos mesquinhos, vamos vivendo de sentimentos mascarados, sentimentos estranhos porque a gente se acostumou com eles. Quem sabe hoje Deus está convidando você, quem sabe hoje Deus está segurando na sua mão para lhe ajudar a olhar os terrenos baldios da sua vida para que você possa transformá-los em jardins. Mágica? Não existe. A Sueli levou muitos tempo para retirar as pedras, as sujeiras daquele terreno, para transformá-lo, para sair da condição de baldio, para transformar-se num jardim.
E o mais bonito, quando a pessoa passava diante do jardim, ninguém tira coragem de jogar o lixo porque num terreno baldio cheio de lixo, é natural que o outro não tenha vergonha de jogar o seu lixo. Já num terreno bonito, plantado, nós não temos coragem de deixar o lixo porque isso nos envergonha. E as vezes acontece isso com a gente. As vezes os outros nos tratam como se fôssemos um lixo porque a gente já se declarou lixo. Se você não voltar a ser jardim, cuidado. Porque todos aqueles que se aproximarem de você vão lhe tratar do jeito que você se apresenta: como lixo. E a boa notícia que hoje nós queremos dar à você é essa: VOCÊ NÃO É LIXO, você é um terreno precioso e que se estiver cheio de lixo é mero acidente de percurso. Vamos ajudar a retirar essas pedras, Deus vem para nos ajudar, para fazer a nossa vida ser nova.
Esse é o Programa Direção Espiritual, o programa que quer ajudar você a retirar o lixo da sua vida, que quer ajudar você a ser um jardim bonito onde as pessoas possam passar por perto e sentir vontade de ficar e o mais bonito: restituir, resgatar o respeito que, por ventura, você tenha perdido ao longo da sua vida."
( Pe. Fábio de Melo )
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É lamentável quando nós viramos um ‘feijão pagão’, sem sabor, e o interessante é que nessa hora chega alguém na nossa vida para dar um sabor.
Eu não sei se tem alguma coisa que alivia a gente mais do que quando chega alguém perto de nós naqueles momentos difíceis, pega na nossa mão e diz ‘eu estou aqui!’.
Quando o Espírito Santo toma conta de nós e tomamos consciência, descobrimos que há um jeito de viver que faz a diferença na vida do outros.
A experiência de emprestar sabor a quem não tem, dar cor na vida de quem está vivendo no preto e branco.
A ação do Espírito Santo é para nos transformar e nos dar sensibilidade, porque o mundo está cada vez mais insensível. Cada uma vivendo no sue mundinho...
Vivemos a distância das pessoas...
Talvez, você saiba o que significa dormir ao lado de um homem há anos na mesma cama e o coração de vocês está distante...
É importante lembrar ao outro que estamos do lado dele.
Muitas vezes a pessoa nos empresta sabor, e até mais, nos empresta a verdade dela, a sinceridade dela.
Efésios 4, 25
Conversão é isso: a descoberta de um jeito antigo de viver que não vale a pena. A verdade é o caminho mais simples.
Lá em MG nós mentimos com uma facilidade! (risos). Digo isso porque eu sou de lá... Eu chego lá os meus amigos todos me convidam para ir tomar um café na casa deles , e eu digo para todos ‘eu vou sim’ (risos).
Nós temos medo de magoar as pessoas, da pessoa ficar chateada...Tem gente que o padroeiro é São Pinóquio! (risos)
Jesus já dizia: a verdade nos libertará. Portanto, a mentira aprisiona.
Você acha que a mentira é o caminho mais simples, mas não é. Na hora que somos verdadeiros, nós chocamos a pessoa, mas nós colocamos as coisas do jeito que tem que ser.
É melhor ser verdadeiro! Dá menos trabalho ser verdadeiro.
Muitas vezes mentimos sem saber que estamos causando malefício a outra pessoa, e olha que mentimos, por vezes, na boa intenção.
Por exemplo na morte de alguém querido, tipo a vovó, muitos pais dizem aos filhos que a pessoa está dormindo, com o intuito de poupar a criança.
Precisamos educar os nossos os filhos para a verdade, com a linguagem da criança, se não o Espírito Santo perde a oportunidade de nos levar para a Santidade.
Às vezes, a vida é tão dura com a gente que não damos conta de vivê-la sozinha. Por exemplo, a tristeza e a alegria, precisam ser compartilhadas, é o desejo de partilha.
É igual quando ouvimos uma pregação e lembramos de uma outra pessoa que também deveria ouvir. Isso mesmo precisa divulgar quando algo é bom para você e pode ser também bom para o outro.
Sabe por que a Canção Nova é um fenômeno no mundo? Porque um sai falando para o outro!
É a alegria que você experimenta e empresta para o outro, não quer só para você, e por isso compartilha, passa para outros.
Se você opta pela verdade, não vai conseguir levar no mesmo saco a mentira. Você fica mais leve com a verdade, não precisa mentir em pequenas coisas.
Na hora da raiva... não peque por causa dessa raiva. Nós expulsamos o Espírito Santo quando agimos com raiva., porque quando estamos com raiva falamos que não queríamos, olhamos do jeito que não gostariamos...
É uma tomada de inconsciência, a pessoa fica agressiva.
Ou nós vamos colocando essa raiva na coleira, ou abrimos brecha ao diabo. Não dê a oportunidade ao diabo.
Quando estamos mergulhados em Deus, a tentação sempre vem, e o inimigo de Deus crava um espinho em nossa carne.
O diabo, por vezes, entra nos detalhes, e nos destrói nas pequenas medidas, e de repente ele tomou conta de tudo. Ele é sedutor. Pequenas medidas podem destruir uma família inteira.
Quando o Espírito Santo faz a construção em nós, é preciso uma vida de renúncia.
Precisamos ser cristãos 24 horas por dia!
Cada um de nós tem um jeito de ter contato pessoal com o Senhor, é como olhar-se no espelho e perceber o que precisa mudar, o que pode fazer para ficar mais bonito, somente que olhar no Senhor é mais que ver a estética, é ver a alma.
Não dê espaço para que o diabo entre em sua vida, e esse espaço pode custar caro para você.
Quando não falamos na hora certa, choramos na hora errada.
As pessoas não sabem viver a moderação porque não fomos educados para isso. Você sabe parar na hora certa?
É tão bonito nós mudarmos a nossa vida, a nossa conduta por causa daqueles que a gente ama, nós tornamos um ser humano mais livre, mais bonito, mais saudável e essa atitude convence e arrasta o que está do nosso lado.
A pior coisa que tem é a fofoca, esparramar uma calúnia do outro. Isso é ‘espírito de porco’, que fuça tudo que há de ruim da pessoa para contar para todo mundo. E isso causa um malefício enorme na vida da pessoa.
Uma palavra errada, sem discernimento causa um estrago. Tudo o que você vai falar precisa passar pelo discernimento. Ás vezes o que você vai falar é preciso, mas é importante saber a hora certa. Encontre o espaço para a verdade para não estragar a alma do outro.
Você que é mãe sabe que precisa ter a hora certa até de falar com o seu filho... concorda?
Você que é mãe sabe que precisa ter a hora certa até de falar com o seu filho... concorda?
A mesma coisa se aplica na hora de dizer as coisas para o outro, precisa pensar antes de falar.
Nós somos vítimas do olhares apressados que temos sobre as coisas, e o Espírito Santo é justamente esse processo de calma para viver e fazer as coisas na hora certa.
É no momento da calma que somos capazes de fazer uma revisão dos espaços vagos que o diabo entra. Precisamos de reflexão.
A calma é aquele momento que a gente sente que Deus está agindo dentro de nós.
Tudo se torna difícil a partir do momento que não sabemos lidar. É importante saber lidar conosco mesmos e assim a liberdade se torna mais simples, a verdade se torna mais simples.
( Kairós agosto/2007 - Transcrição: Célia Grego )
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Vós, porém, não foi para isto que vos tornastes discípulos de Cristo, se é que o ouvistes e dele aprendestes, como convém à verdade em Jesus. Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4, 17-24).
O tempo do Espírito é o tempo da Igreja. O tempo da Igreja é o tempo de criar a estrada que nos leva a plenitude daquilo que já nos foi revelado. Enquanto Cristo está com os discípulos Ele é o responsável por essa propriedade, Ele é o cumprimento da promessa que o povo esperava: a terra que corre leite e mel, o lugar do nosso descanso, onde podemos reclinar a nossa cabeça. O lugar demarcado para o encontro é também paraíso. Esse texto fala da Igreja, mas não é discurso para multidão, ele nos atinge em particular.
"Não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas idéias frívolas”.
Esse texto nos abre olhos que a partir do momento que nos entregamos a Deus não podemos viver como pagão. Nós podemos muitas vezes achar que estamos seguindo Jesus e estarmos como telespectadores.
Nossa inteligência muitas vezes não nos leva a nada, refletimos, mas agimos como pagão. Nossa inteligência não age a nosso favor cada vez que optamos pela vida sem sabor, fazendo uma opção burra, pois a vida passa rápida e desperdiçamos o tempo.
Uma vida no Espírito Santo é uma vida de sabor, de alegria e que sempre tem espaço para a luta. Aquilo que mais te faz feliz é aquilo que você precisou lutar muito, aquilo que vem muito fácil não tem muito sabor. Viver como pagão é você dizer que não tem sabor.
A vida pagã vai retirando de nós toda disposição para qualquer coisa. Jesus era um homem que reinaugurava as pessoas todos os dias. Você precisa descobrir que rotina você precisa colocar um tempero todo dia. Assim como precisamos do pão nosso de cada dia precisamos do sabor de cada dia.
Se você comer arroz, feijão e couve todos os dias você enjoa, precisamos mudar o sabor. Por isso não podemos viver como pagão. Ninguém agüenta religião por obrigação, precisa ter sabor.
A força do Espírito Santo coloca em nós a alegria de que vale a pena seguir os passos de Jesus. Cristianismo é também dever, mas se você mergulhar nele você verá que ele tem mais sabor do que qualquer outra coisa.
Não podemos associar que a vida em Deus é só sofrimento, não! Ela tem sabor, pois você vê Deus mudando sua forma de ver o mundo, Deus está tentando por sabor na sua vida. Deus amplia seu olhar para o mundo para que você não seja vítima de olhar as coisas com o olho torto com uma visão preconceituosa.
Imagina se Jesus olhasse o povo com uma visão preconceituosa, ninguém teria uma chance com Ele. Nossa visão muitas vezes é preconceituosa porque é sem sabor.
A coisa mais pesada que tem é a gente colecionar preconceito. Ele fecha a porta para muitos acontecimentos em nossa vida. Essa visão pagã está dentro de nós. E conversão é isso, é abertura da nossa mente para vermos as coisas com mais inteligência. Um coração endurecido é um coração ignorante.
Qual a primeira ação do Espírito em nós? Libertar-nos da ignorância. Ele retira de nós o endurecimento do coração e tudo que nos impede de crescer. O principal ato de ignorância é quando a gente não sabe e finge que sabe.
Precisamos reconhecer que não sabemos. Sair da ignorância é muito difícil. A gente prefere ensinar que aprender. Para sair da ignorância é preciso ter calma. O processo de Deus e do Espírito Santo é lento dentro de nós, dura a vida inteira.
Como você supera o medo? Eu nunca vi uma pessoa que tem mais medo de defunto do que eu? E eu tenho que ir nos velórios, sou padre. Não encosto em nada em ninguém, fico agoniado. São traumas que ficam no inconsciente. Pois quando eu era pequeno escutava várias estórias sobre defunto antes de dormir, então cresci com medo de defuntos. O Espírito Santo é quem nos modifica de todas essas coisas que em nós precisa ser mais saudável.
Deus te faz um homem livre cada vez que você permite que o Espírito Santo te leve a casa sua. É preciso que tomemos posse. A promessa que o Espírito Santo faz a Igreja é: “eu farei novas todas as coisas”.
Por isso precisamos sempre acolher a graça que nos cabe. Nós vamos chegar àquilo que temos de mais sagrado quando nossos olhos estiverem pregados na sedução de Jesus.
Mas se seu olhar estiver pregado na sedução do demônio você se transformará num ser humano desprezível, mesquinho. Mas olhando para Jesus você poderá proclamar desde já a vitória em Jesus, a propriedade é sua, toma posse quando quiser.
( Kairós agosto/2007 - Transcrição: Célia Grego )
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É tão fácil a gente cair na religião do mito – Jesus já nos alertava o tempo todo para o culto dos ídolos – e a idolatria é um dos principais problemas religiosos no mundo.
Esse é um risco que todos nós corremos, quando a nossa admiração por alguém, ou por uma pessoa se torna essencial, colocada acima, em termos de importância do que aquele que a pessoa anuncia.
Decepcione-se comigo, mas que a sua decepção comigo, não seja uma decepção com aquele a quem eu anuncio. Decepcionar com o humano, porque é frágil, tem sono, fica mal humorado, tudo bem, mas não confunda a minha pessoa com aquele que eu anuncio.
Temos que viver uma religião que seja capaz de mexer com as estruturas da nossa consciência, a ponto de nos fazer acordar para tudo aquilo que nós dormíamos e que não sabíamos que existia dentro de nós.
Já estávamos inconsciente acostumados com o nosso jeito ciumento de amar, jeito ciumento de possuir as pessoas, achando que isso era amor; eu já era desonesto nas pequenas coisas e já estava acostumado. Até que um dia uma palavra profética varou as estruturas da minha vida e me incomodou.
Uma palavra profética tem o poder de fazer de acordar os surdos, aqueles que estão dormindo, que já não escutam mais nada, num sono letárgico, ou até mesmo num cumprimento de rituais inférteis que já não servem de nada para a nossa salvação.
É a continuidade da missa que nos salva, é a história que fica diferente em cada comunhão comungada, cada mesa partilhada, cada confissão realizada, é o que se segue dali. O sacramento não é a mágica de um momento, mas é a continuidade da vida que vai sendo incorporada, porque o sacramento aconteceu em mim.
É disso que Jesus fala: “Não venha me dizer o que você fazia antes, não me importa o que você fazia. Importa-me o que você era. O que faz diferença para mim é o quanto a minha palavra conseguiu transformar o seu coração a ponto de transformá-lo numa pessoa melhor”.
De você olhar para trás e dizer: “Antes eu era assim, e pela força da Eucaristia, do Evangelho, do terço” – todas as manifestações religiosas que você pode ter e viver. Você percebe que a sua vida não é mais a mesma, porque você mudou o seu jeito de pensar, modificou o seu jeito de ser.
A religião que Jesus quer de nós é esta: que você fixe os olhos céu, que você busque o céu.
Quer saber o que vai lhe causar dor? Descubra o processo de saber como educar. Nós somos capazes de seguir uma regra a partir do momento em que conhecemos a regra. O Deus que nós anunciamos, não é uma ameaça.
Se cada um de nós hoje tivesse a oportunidade de contar o que passamos, de escrever a nossa história, tudo o que tivemos de suor, sofrimento e sangue, não teria editora suficiente para tantos livros. Alegria é plantada na dor. Descubra as cicatrizes da sua alma, e saberemos o quanto você é feliz a partir delas.
Nesse calvário, você tem duas opções: ou esquece o peso da cruz ou olha que tem um Cirineu do seu lado. Religião que só nos mostra a cruz é uma religião infértil, porque eu não sou filho do calvário, eu sou filho do Ressuscitado - e o que eu anuncio sempre é o Ressuscitado.
Você não pode ficar parado no calvário da sua vida - todos nós passamos todos os dias por ele.
Humanidade é isso, é trazer a luz do ressuscitado para nós e ver que há muito para ser limpo em nós. O anúncio do evangelho é para nós aprendermos que não temos que ficar com as nossas poeiras, e impurezas.
Você acha que a gente vai ser santo sem sacrifício? Quando eu acendo uma vela com fé, eu acendo a fé dentro de mim também. A gente tem que fazer o sacrifício sim. Quando eu deixar de comer algo é para eu ser melhor.
Tem gente que espera a Quaresma inteira sem beber, mas não vê a hora de acabar a Quaresma para encher a cara de novo. Se a nossa religião não colocar um pouco de sorriso em nós não vai adiantar de nada.
Eu sei das minhas lutas, mas estou satisfeito, porque eu não me prendo naquilo que eu não posso, mas sim naquele que me anima. A dor sinaliza de que alguma coisa precisa ser cuidada. Nós queremos a ressurreição, mas não queremos o calvário.
A dor é o preparo. A semente passa por todo um processo de crescimento, mas ela sabe que se ela não deixa de ser o que ela é. Não desista, está apertado, está achando que está difícil, mas a dor faz parte do processo.
A sua dor não pode ser em vão. O que você faz com a sua dor? Faz um quadro? Faz música? A genialidade está em transformar a lata velha em ouro. Ou a dor me destrói, ou eu transformo a dor em processo de ressurreição.
"Me bateu uma tragédia terrível!" Mas eu não paro. Vou buscar força, eu não posso mudar os fatos, mas posso mudar o jeito de ver através dos fatos.
Na nossa vida espiritual é assim. Às vezes, a gente quer chegar sem ir. Não se chega a lugar nenhum sem dar o primeiro passo. Nossa vida é um desafio diário e não tem tréguas. É lapidar e tirar tudo o que é excesso em nós.
Não tem jeito de amar sem sofrer. Quem ama está o tempo todo querendo cuidar.
Se eu não tivesse sofrido do jeito que eu sofri, se eu não tivesse amado do jeito que eu amei, eu não teria nada para contar a vocês.
Não sinta vergonha de nada que você sofreu, porque depois que você passou por aquele momento, você sabe o que você sofreu para chegar aonde você chegou.
( Kairós agosto/2007 - Transcrição: Célia Grego )
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A maturidade faz parte de um processo. Em um processo não podemos queimar etapas. Ele é lento, chato e demorado. Uma criança passa por um momento de amadurecimento a partir do momento que começa a brincar.
A maturidade acontece, quando tomamos posse do que nós somos, para aí então poder nos dividir com os outros. Isso faz parte do processo de maturidade.
Não nascemos amando, pelo contrário, queremos ter a posse dos outros. Essa é a forma de amar da criança, pois ela não consegue pensar de maneira diferente. Ela não consegue entender que o outro não é ela. Quantas pessoas já adultas pensam assim, trata-se da incapacidade de amar, falta de maturidade.
Todos os encontros de Jesus levam a implantação do Reino de Deus. Mas só pode implantar esse reino quem é adulto, que já entende que só se começa a amar a partir do momento, que eu não quero mudar quem eu amo.
Geralmente quando tememos alguém ruim ao nosso lado, é porque nos reconhecemos naquela pessoa. Jesus não tinha o que temer porque era puramente bom, por isso contagiava os que estavam ao seu lado.
Na maturidade de Jesus você encontra a capacidade imensa de amar o outro como ele é. Amar significa: amar o outro como ele é. Por isso quando falamos em amar os outros, podemos perceber o quanto deixamos de ser crianças. Devemos nos questionar a todo o momento quanto a nossa maturidade.
A santidade começa na autenticidade. Por isso Jesus nos pede para ser como as crianças, que são verdadeiras e simples. É nisso que devemos manter da nossa infância e não a forma de possuir as coisas para si.
Você tem condições para perceber a sua maturidade. É só observar se você é obediente mesmo quando não há pessoas ao seu redor. Você não precisa que ninguém te observe, pois você já viu aquilo como um valor.
Pessoas imaturas sofrem dobrado. Pessoas imaturas querem modificar os fatos, pessoas maduras deixam que os fatos os modifiquem. A maturidade nos faz perceber que não podemos mudar os fatos. Um imaturo ganha um limão e o chupa fazendo careta. O maduro faz uma limonada com o limão que ganhou.
Muitas vezes os nossos relacionamentos de amizade são uns fracassos porque somos imaturos. Amigos não são o que imaginamos, mas o que eles são e com todos os defeitos. Amizade é processo de maturidade que nos leva ao verdadeiro encontro com as pessoas que estão ao nosso lado. Elas têm todos os defeitos, mas fazem parte da nossa vida e não a trocamos por nada deste mundo. Isso porque temos alma de cristão e aquele que tem alma de cristão não tem medo dos defeitos dos outros, porque sabe que aqueles defeitos não serão espelhos para nós, mas seremos um instrumento de Deus para ele superar esse defeito.
Padre só pode ser padre a partir do momento que é apaixonado pelos calvários da humanidade.
Se você não consegue lidar com os limites dos outros, é porque você não consegue lidar com os seus limites. A rejeição é um processo de ver-se.
Toda vez que eu quero buscar no outro o que me falta, eu o torno um objeto. Eu posso até admirar no outro o que eu não tenho em mim, mas eu não tenho o direito de fazer do outro uma representação daquilo que me falta. Isso não é amor, isso é coisa de criança.
O anonimato é um perigo para nós. É sempre bom que estejamos com pessoas que saibam quem somos nós e que decisões nós tomamos na vida. É sempre bom estarmos em um lugar que nos proteja.
Amar alguém é viver o exercício constante, de não querer fazer do outro o que a gente gostaria que ele fosse. A experiência de amar e ser amado é acima de tudo a experiência do respeito.
Como está a nossa capacidade de amar? Uma coisa é amar por necessidade e outra é amar por valor. Amar por necessidade é querer sempre que o outro seja o que você quer. Amar por valor é amar o outro como ele é, quando ele não tem mais nada a oferecer, quando ele é um inútil e por isso você o ama tanto. Na hora que forem embora as suas utilidade, você vai saberá o quanto é amado.
Tudo vai ser perdido, só espero que você não se perca. Enquanto você não se perder de si mesmo você será amado, pois o que você é significa muito mais do que você faz.
O convite da vida cristã é esse: que você possa ser mais do que você faz! ”
( Acampamento PHN: “Quem tem um amigo tem um anjo!” - Transcrição: Renan Félix )
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"O amor é um atributo humano que nos antecipa no tempo aquilo que já é eterno. Antecipar o céu, por meio de nossa capacidade de amar, é um jeito bonito que temos de recolher na carne de nossa humanidade o que Deus fez questão de esquecer entre nós.
Santo Agostinho nos dizia com sabedoria que Deus nos amou para que tivéssemos amor com que amar. O amor humano, ainda que marcado pelos limites de nossa condição adâmica, pode ser lugar da manifestação de Deus na história. O nosso amor humano é epifânico; é sarça que arde sem se consumir, porque a energia que produz o fogo não vem de nós. Deus está na fonte de todo amor.
Camões poetizou bem ao dizer que é fogo que arde sem se ver. Gabriel Marcel intuiu maravilhosamente ao filosofar, que só o amor é capaz de nos resgatar da morte. Adélia Prado, maternalmente nos revela, que tudo aquilo que a memória amou já ficou eterno…
Os poetas sabem das coisas, e Diego Fernandes é um menino poeta. Descobriu o gosto de brincar com as palavras e delas extrair verdades consistentes. Mas ele escreve com leveza, porque tem o dom de colocar um sorriso na frase que repreende. Esse é o dom de evangelizar pela força da ternura.
Ele anda se desdobrando na bem-aventurança de rabiscar o mundo com palavras evangélicas, que soam em nossos ouvidos de forma tão atual. Diego aceitou o desafio de expor as possibilidades e as precariedades do amor. Ousou demonstrar que o amor, essa faca de dois gumes, pode fazer crescer, como pode machucar. Volto a dizer. Amor é atributo humano e divino ao mesmo tempo. O que é divino já é puro por natureza, mas por também ser humano, carece de passar pelo crivo da purificação, para que volte a ser imaculado.
Diego resolveu expor seu coração. Não é possível falar de amor sem antes passar pela experiência de ter essa adaga cortando-lhe a alma. Só as almas cortadas pela lâmina do amor poderão viver a cicatriz que nos identifica como amantes da vida.
Este livro é feito para quem já sabe tudo isso, mas é também para quem ainda não aprendeu. Para quem sabe, porque é sempre bom saber de novo. E para quem ainda não aprendeu, porque é sempre bom encontrar a novidade, e com ela aprender.
Que seja assim. Que na linguagem deste menino, que tem sotaque do sul do país, nós possamos redescobrir a graça de nortear nossos amores, desafiar nossos temores, e seguir pela vida, amando, morrendo e ressuscitando.
Ninguém ama sem morrer um pouco, mas ninguém é amado sem ressuscitar também. Por isso precisamos dos dois movimentos do amor. Na morte, o empenho que nos prepara como humanos. Na ressurreição, a delícia de já poder sentir na carne o surpreendente sabor daquilo que já é eterno.
Só o amor pode nos movimentar para a eternidade. Que essas palavras tão cheias de sabedoria sejam um remanso a nos conduzir."
Com carinho, benção e desejo de alegrias,
( Pe. Fábio de Melo )
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Não é possível falar de crescimento humano, se antes a gente não fala de reconhecimento dos limites. O bom treinador é aquele que vai saber salientar a qualidade do atleta, mas, sobretudo, vai saber encaminhá-lo para a superação dos limites. O primeiro passo é reconhecer onde a gente precisa melhorar.
É um grande desafio para todos nós porque, lamentavelmente, as pessoas não estão preparadas para nos educar para a coragem. Sabe por quê? Porque muitas vezes os incentivos que nos são dados estão mais voltados para esquecermos as nossas fragilidades. Quando mostramos as nossas fragilidades, há uma série de repreensões diante de nós.
Você já reparou que a gente não deixa a criança chorar? Já reparou que quando o recém-nascido chora, nós fazemos de tudo para calar a boca dele. Fazemos uma série de "cara feia" para ver se a gente cala a criança, para tentar espantar a fragilidade.
Nós, humanos, temos uma dificuldade imensa de lidar com a fragilidade do outro – ainda que seja filho da gente. Nós gostamos é de todo mundo feliz. Não estamos preparados para encarar a fragilidade. Parece que a nossa educação está sempre voltada para nos revestir de uma coragem que nos faz esquecer o limite.
Ter coragem é descobrir onde está a nossa fragilidade e ali trabalhar com um empenho um pouquinho maior. É não desconsiderar o que temos de bom, mas é também colocar atenção naquilo que ainda temos que melhorar. Estamos em processo de feitura. Não estou pronto, eu não sou perfeito, estou por ser feito, estou sendo feito aos poucos. E no processo de ser feito aos poucos eu vou descobrindo onde é que dói este espinho. Este espinho muda de lugar. Quanto mais uma pessoa está aperfeiçoada no processo de ser gente, maior é a facilidade de conhecer limites.
Para você retirar um espinho, às vezes, é preciso deixar inflamar. É como se o seu corpo dissesse: “Isso não me pertence”. De qualquer jeito, nós temos que tirar aquilo que não nos pertence. Tem algumas inflamações do espírito, da personalidade que tem gente que é tão aborrecida que a gente não pode nem encostar. São aquelas inflamações que se alastram.
E aí é que entra a grande contribuição do Cristianismo, numa proposta antropológica. Porque Deus não quer que você seja um anjinho na terra, mas que você deixe de ser inflamado. Ele quer te mostrar as inflamações para que você lute.
Cara feia, arrogâncias, isso é complexo de inferioridade. Sabe qual é o espinho? O medo, a insegurança.
Você já fez a experiência de viver uma palavra que te fez vazar em tudo o que estava estragado? Língua afiada quer dizer: deixar toda a inflamação que está dentro de nós vir para fora.
Ter condições de vazar aquilo que antes a gente desconhecia é admitir e reconhecer que somos frágeis. A pior ignorância é aquela que finge que sabe! Temos medo de mostrar que não aprendemos, que somos frágeis. Quantas vezes na nossa vida, por medo, perdemos a oportunidade de aprender.
Às vezes, por medo de expor a nossa fragilidade, porque parece que o mundo de hoje se esqueceu de mostrar a cultura do esforço que se fez para chegar aonde chegamos, perdemos o direito de chorar. E muitas vezes choramos e não sabemos o porquê estamos chorando.
O ensinamento de Jesus é sempre o avesso do avesso. Quer ser santo? Assuma que você é fraco. Muitas vezes, neste processo de se conhecer, a gente sangra. E nós precisamos sangrar. Um dos maiores poetas da música diz isso.
Quantas vezes você não se viu traduzido em uma canção de alguém que teve a coragem de sangrar, não teve medo de mostrar as próprias fragilidades.
Nós somos todos iguais. Nós, padres, somos todos iguais. Não adianta a gente fingir que é forte, ou ficar fingindo que não sente e que não tem medo. Eu não sei se você tem mais de cinco pessoas que conhecem os seus segredos. Para quantas pessoas você teve coragem de sangrar? Pessoas que te enxergam por dentro são raras.
Conversão é isso. É você educar o seu filho para ele poder te contar onde estão os espinhos. O espinho não é o defeito, mas é a seta que nos mostra onde temos que trabalhar para ser melhor.
A vida vai perdendo a graça porque não nos deixamos sangrar. A gente sangra melhor nos momentos de intimidade, onde a gente tem coragem de tirar a couraça. É muito melhor a gente admitir que tem medo. Para as pessoas ,é sempre doloroso ter que tirar os espinhos, de ver vazar as inflamações.
Tem tantas situações que nos deixam com o “coração na boca”. Às vezes, nós colocamos muito mais atenção naquilo que as pessoas estão achando de nós, do que o que nós pensamos de nós mesmos.
Examine-se você é uma pessoa que consegue levar o outro à cura. Em última instância, o que vai sobrar de nós é a nossa vontade de amar. Vamos descobrir o que hoje em nós está infeccionado, porque é preciso sangrar, é preciso reconhecer-se frágil.
( Festival de Músicos 2007 - Transcrição: Célia Grego )
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Palavra errada, na hora errada, pode se transformar em ferida naquele que disse, e também naquele que ouviu. Em muitos momentos da vida o silêncio é a resposta mais sábia que podemos dar a alguém.
Por isso, prepara bem a palavra que será dita. Palavras apressadas não combinam com sabedoria. Os sábios preferem o silêncio. E nos seus poucos dizeres está condensada uma fonte inesgotável de sabedoria.
Não caia na tentação do discurso banal, da explicação simplória. Queira a profundidade da fala que nos pede calma. Calma para dizer, calma para ouvir.
Hoje, neste tempo de palavras muitas, queiramos a beleza dos silêncios poucos.
( Pe. Fábio de Melo )
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"Aquilo que você está vivendo, o peso que você está carregando, não é nada comparado a alegria que te espera..."
Em março quando meu pai deu o seu último suspiro, eu estava lá com ele, mas por covardia não tive coragem de segurar na mão dele, por medo de ver agonia que ele estava vivendo.
Nove de abril, terra boa no Paraná, recebi a notícia de que minha irmã estava morta, e o dia 15 de dezembro o dia em que eu comemorava o meu aniversário de ordenação, a dor mais recente, quando o meu amigo Robinho (Cantores de Deus) não conseguiu mais, o câncer foi maior que ele. E alguns dias depois uma outra experiência que eu vivi, mas que não quero falar aqui, mas em uma outra ocasião, meu amigo padre Léo.
Mas vou me prender nessas três...
Quando alguém morre, levamos certo tempo, sem entender, sem acreditar. Leva tempo para acontecer dentro de nós, a gente leva um tempo dizendo ‘eu não acredito’. Você fica o tempo todo ruminando aquele acontecimento, porque a vida leva tempo para acontecer dentro de nós.
Nós levamos tempo para organizar o luto, levamos tempo para descobrir que aquela pessoa não faz mais parte da nossa vida mesmo. E a gente começar a recolher no espaço que era dele e nosso também, as coisas que ficaram.
Você abre uma gaveta, e coisas pequenas, bobas, um bilhetinho, que antes não teria valor nenhum, mas porque ele foi embora, foi revestido por uma sacralidade que dinheiro no mundo que pague aquele bilhete. Ai se alguém fizer uma limpeza nas nossas gavetas e começar jogar fora o que pra nós é sacramental, porque é um jeito que a gente tem de fazer o outro sobreviver.
Eu comecei a entender e ajuntar com as várias oportunidades que Deus me deu de viver a experiência do sábado santo. Por isso eu quis contar essas três histórias para vocês e proclamar essa palavra de São Paulo aos Romanos que diz:
“Porque para mim, tenho por certo, que os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória por vir a ser revelada em nós.”
Descubra o que hoje lhe mata, descubra o que hoje lhe faz sofrer e você de alguma maneira poderá intuir e descobrir aquilo que te fará vencedor amanhã.
Há duas formas de vivermos o processo da morte, ou o processo do sofrimento: ou nós nos entregamos a ele, ou nós experimentamos a ressurreição, que pode ser exalada aos poucos.
O céu começa nas pedras, por isso, o Sábado Santo é ainda tempo de silêncio e contemplação, porque o nosso Mestre ainda está morto.
Os discípulos viveram ontem, vamos voltar no tempo. Você já tem a certeza da ressurreição, os discípulos não tinham.
No dia anterior os seus discípulos viram o seu Mestre ser morto. Eles que tinham deixado tudo para segui-Lo, e de repente, Aquele em quem eles colocaram sua esperança tinha morrido, por isso eles voltam a suas vidas antigas, se reuniram para decidir o que fazer de suas vidas, mas o que os evangelhos não contam é que ao olharem uns para os outros, sentirão o perfume de Cristo no ar.
É impossível passar pela experiência com Jesus e sermos iguais. Os discípulos se olharam e diziam: ‘...o perfume de Cristo está no meio de nós’, e não é possível que d’Aquele que fez tanto por nós, não tenha ficado nada.
Os discípulos só reconhecem Jesus quando eles reconhecem quem eles são. Aquele que tem o poder de te amar de verdade tem o poder de te fazer lembrar quem você é.
Esta promessa de São Paulo está enraizada na experiência que eles tiveram com Jesus na dor, no sofrimento.
Descubra na sua história o que você viveu, onde você não se deixou viver a experiência do casulo. Assim como as árvores, que tem que condensar todas as suas seivas para quando chegar a primavera possam ter seiva para que as folhas sejam verdes.
Quantas vezes rezamos pela cura daqueles que amamos, assim como rezamos pela cura do padre Léo, quanta falta ele faz para nós! E para você que teve a sua vida transformada por uma palavra do padre Léo... Então ele morreu? Não! Porque quando você vive essa palavra proclama por ele, quando você faz brilhar a experiência daquilo que você aprendeu com ele através da palavra, ele se torna vivo dentro de você.
Deus não está aí para realizar o que você quer mas para o que você precisa!
O que você precisa que Deus faça na sua vida? A gente não sabe responder, porque estamos ocupados demais em dizer o que queremos.
Não nasce cristão da noite para o dia, leva tempo, e filho do céu nasce ‘parturiado’, não tem cesariana, não nasce de maneira fácil. Filho do céu nasce da pedra, do túmulo.
Manhã de sábado é manhã de preparo, não sepulte de qualquer jeito, não passe pelo seu sofrimento de qualquer jeito, só vem a glória se, de fato, mergulharmos no mistério da morte. Não é para ficarmos na morte, mas devemos olhá-la de frente para que ela não seja maior que nós.
Que nessa manhã de espera e ressurreição você não se esqueça que você é um filho do Céu!
( Acampamento Semana Santa/2007 )
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Amar é doer o tempo todo. Você ama um filho e sabe que ele precisa ir para a escola, mesmo que ele fique lá gritando e você saia chorando, porque ele precisa se desprender de você.
Na minha infância, eu fazia xixi na calças na escola só para ir para casa ficar com minha mãe. Até que no quarto dia a professora disse que tinha providenciado uma cuequinha. Ali foi o momento em que eu aprendi a perder.
Você, mãe, tem dor de parto para trazer seu filho ao mundo. Mas você vai parturiar esse menino o tempo todo. Mãe que não sabe perder não sabe educar o filho. Digo tudo isso para falar da sarça ardente e da ordem de Jesus sobre a travessia à nossa conversão.
Moisés reconhece a missão de levar o povo a passar pelo deserto. E vê uma sarça que queima sem se consumir. Mas ele tem consciência de aquele momento é acidental em sua vida. Deus poderia ter se manifestado de outra forma. Acidental é aquilo que poderia ser diferente, que não faz falta, que com a ausência a vida continuaria do mesmo jeito.
Voltamos à música. "Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia solitário sem ter feito o que eu queria".
A morte teria encontrado Moisés se ele pensasse que na sarça ele tinha visto tudo. Deus não nos entrega nada para que morra, mas para ser multiplicado. Qualquer experiência humana não termina ali, mas sempre tem um algo mais.
Sarças podem arder tanto para encantar, como para desesperar. Quando você viveu aquele momento de dor e disse que era demais, que não iria suportar. "Não vejo outra perspectiva, não vejo solução". Mas você desafiou-se e não ficou parado com a sarça.
A vida, às vezes, nos faz parar para ver a sua beleza, mas também a sua tragédia. E nada pode nos parar. É a junção do calvário e sepulcro vazio que dão sentido à nossa vida. O que vai fazer a diferença é o modo como você encara o momento que vive.
A vida é inteligente o tempo todo. A morte é um processo natural de dar lugar ao outro. Está certo que a gente ama, mas você não pode ficar parado. Não pare naquele momento, porque o definitivo é destrutivo sempre. O definitivo chama-se inferno e quem cai no definitivo corre o risco da arrogância. Amor sobrevive daquilo que não sabemos do outro, mas desconfiamos, estamos descobrindo a cada dia.
"Essa festa está tão boa que eu não queria que acabasse". Mentira. Já está na hora de ir embora. O resto da vida é tempo de demais. O pôr do sol só é bonito porque está acabando. Se não fosse passageiro não iríamos prestar atenção, pois estaria ali toda hora.
Deus nos indica um caminho a percorrer. O que Jesus nos fala é: "Corra atrás do que está em você. Dentro de você há tantos lugares para chegar, tanto pôr do sol. No lugar da trovoada também ter pôr do sol". Você não nasceu para o definitivo das tragédias.
Religião é antes de qualquer coisa a mistura do sagrado e divino em nós. Conhece o que você é, porque assim você saberá trabalhar melhor com você. A gente quer conhecer o outro, mas não quer conhecer a gente mesmo. É luta o tempo todo. Você vai ver o que é atraente, mas também os seus espinhos. E faz a experiência de caminhar no deserto e ir além.
E se Jesus perguntar quem é você? O que você tem feito da sua vida? O que você tem permitido que os outros façam da sua vida? O que na sua vida é essencial? Onde você gasta os seus dias, as suas horas?
A gente está lidando o tempo todo com abelhas que nos rondam o tempo todo para extrair alguma coisa de nós. O que sai? Mel ou fel?
É muito fácil produzir mel quando tudo está favorável a nós. Mas o desafio estar em dar testemunho da nossa fé quando tudo está desarrumado e proclamar nossa fé naquele que nos fez "descer da árvore".
Você quer ser feliz, acertar, mas corre o risco de chegar lá e dar conta de que não deu certo. Só chega lá quem toma a disciplina de não desistir.
O que você gostaria de fazer? O que você gostaria de sonhar diferente? Se hoje você morresse, quais sonhos morreriam juntos?
Só sobrevive no deserto quem se planeja para fazer uma travessia segura. A coisa mais fácil é perder o rumo da vida gente. Basta uma luz no foco errado. Cuidado com tudo aquilo que brilha demais, que é muito artificial. Fogos de artifício são passageiros, temporários.
Nunca vi um rapaz chorando porque não ganhou o iate que queria. Mas já vi muitos rapazes chorando sem terem coragem de contar que queriam se sentir amados. A falta de amor faz chorar, destrói. Amor é essencial. E muitas vezes nos prendemos para dar aos filhos o que é acidental.
A gente só consegue suportar a travessia do deserto se estivermos agrupados. Ninguém chega no céu ou no inferno sozinho. Sempre é agrupado.
Essa música é diferente da outra e nos dá esperança: "Eu preciso de Ti, meu Senhor. Quero caminhar contigo e não mais andar sozinho. Eu preciso de Ti".
Se quiser ir longe segure nas mãos desse Deus que se oferece na Eucaristia.
( Kairós março/2007 - Transcrição: Maurício Rebouças )
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Só tem saudade quem já amou. Existem muitos momentos da nossa história que a vida está passando por nós, mas nós não estamos passando pela vida.
Só ama de verdade quem é capaz de retirar o outro da mira do tempo; aquelas pessoas que não deixam a vida passar, mas passam pela vida, e fazem a experiência dela.
Eu não sei o que te trouxe aqui, eu não sei o porquê te interessa vir aqui na Canção Nova ou ter ligado a TV na Canção Nova, mas um psicólogo diz que a fonte de todo desejo é ser desejado. E desejo está intimamente ligado ao conceito de encontro.
O que buscamos na vida?
Quantas oportunidades tivemos de estar com Deus e não O encontramos ainda, ou tivemos a oportunidade de estar com pessoas, mas não as encontramos. Por que isso? Porque você precisa acender a luz para enxergar essa pessoa.
Cada vez que amamos, a vida fica eterna em nós e também por quem passa por nós. Neste mundo marcado pela temporalidade, onde tudo é tão fugaz, nós estamos cansados de sermos olhados de qualquer jeito. Nós nos acostumamos a não acender a luz, e por isso não descobrimos a graça do encontro. Se o encontro é acender a luz, o desencontro é apagar a luz.
Nossa experiência com Deus pode ser marcada por vários desencontros, porque não acendemos a luz. Equivocamos-nos com pessoas que achamos concretas na nossa história, mas que são apenas "fantasmas".
Aquele que esbarra com alguém fica feliz só por um tempo, por isso é preciso ter um encontro. Na Sagrada Escritura muitas pessoas encontraram Jesus.
Esse é Jesus, um homem raro, um contraversor no seu tempo.
Zaqueu, de certo, vivia sua vida desregrada porque ainda não tinha ouvido falar de um Deus que queria estar perto dos pobres e miseráveis. Ele nunca tinha escutado alguém dizer que Deus preferia os que estão "à margem". Deus foi causa de desencontro na sua vida, porque Zaqueu foi educado a ter essa imagem de Deus. E por curiosidade ele sai de casa, porque conhecia a fama de Jesus, e sobe numa árvore. Há tanto significado nessa pequenez de Zaqueu, de subir na árvore, mas o gesto de descer dela foi maior ainda o significado.
Qualquer curiosidade nos faz subir na árvore, difícil é você descer e saber que a ‘festa’ vai acabar, mas Deus queria que ele descesse para ter um encontro com Ele. Como é que podemos acreditar que mesmo sendo nós do jeito que somos, e Deus do jeito que é, pode acontecer entre nós uma história de amor?
Eu sei que você cresceu e foi educado achando que o Papai do Céu era um Deus que amava apenas os certinhos. Jesus veio mostrar que é diferente!
Aquele que sobe na árvore é olhado nos olhos, e quando somos olhados nos olhos não dá para sermos os mesmos. Parece que fomos impactados por um poder de revelarmos a nós mesmos. Por isso Zaqueu desceu e viu que o lugar dele era lá embaixo. Jesus prendeu os olhos nos olhos de Zaqueu. E depois ele que foi olhado por Ele não teve como voltar mais para a sua vida velha.
Jesus disse para Zaqueu: "Desce, que hoje eu vou ficar na tua casa". Jesus não disse que iria dar uma passadinha na casa dele, disse que ia ficar. Não é apenas um encontro temporário, Aquele que veio, veio para ficar. E quando Deus fica na nossa vida, de fato, somos encontrados, e um processo de transformação acontece em nós.
Se você quer de fato encontrar alguém, precisa criar habilidade para olhar nos olhos e viver uma história juntos. Não tem como ser amigos, ou marido e mulher, se não se olha nos olhos. A mentira cai no momento em que olhamos nos olhos, e só saber reconhecer a mentira olhando nos olhos daquele que já estabeleceu intimidade.
Assim como temos religião de espetáculo, tem amor de espetáculo, que é o que chamamos de paixão. O (a) apaixonado(a) não vê defeito em ninguém.
A paixão dura o tempo que você deixar essa luz apagada. O encontro só acontece quando acendemos a luz.
Você não tem que procurar a pessoa ideal, você tem que procurar a pessoa certa. A pessoa ideal é a sua imagem e semelhança. O mesmo acontece com Deus. Nós, muitas vezes, fantasiamos Deus; esse Deus que nós imaginamos, e por isso mesmo, por muitas vezes somos o deus do deus que imaginamos, o deus a quem eu mando na oração, que só pede o que acha melhor; damos ordens a Deus ao invés de obedecer. Não existe encontro quando você encontra imaginando.
O encontro é que marca o conhecimento. A mudança de Zaqueu se deu com o fato de Jesus ter olhado nos olhos dele. A caminhada com Jesus é que nos faz saber que conhecemos a Deus. É preciso conhecer Deus, caminhando com Ele. Se não caminhamos com Ele, O imaginamos como Ele é e como Ele agiria.
Deixa Deus ser Deus na sua vida. Deixe que o encontro aconteça. Deixa que a vida te revele Deus!
Uma certeza: os infelizes querem encontrar a felicidade, os mentirosos desejam encontrar a verdade, os ladrões buscam encontrar a honestidade. Mas para que isso aconteça é preciso ir em busca desse encontro das coisas que acreditamos.
Eu não sei qual o motivo de você estar aqui, eu não sei como anda o seu coração e o que você espera de Deus. Eu não sei o que hoje você gostaria que acontecesse na sua história, ma tenho a certeza: errando ou acertando, a gente busca esse encontro.
Tem muita gente que precisa de um consolo, que precisa ser encontrada. Nossas dores são universais, porque precisamos, de fato, encontrar uma solução.
Muitos de nós estamos perdidos, como no deserto, com a sensação de que o tempo está passando, que estamos perdendo tempo. Como que podemos corrigir a nossa vida? Descendo da árvore!
Não fique na árvore gritando o que você precisa, mas desça da árvore, e caminhe na direção de quem você precisa amar, pedir perdão. Perde tempo demais quem fica na árvore gritando as sua ingratidões, suas dores, seus males, suas necessidades. Desça da árvore!
Tem pessoas aqui que apenas precisam de um olhar amigo, encontrar um olhar que dispense de falar alguma coisa, quando não sabemos dizer o que sentimos. Às vezes, um olhar amigo é o tudo e o pouco que precisamos.
Buscar em Deus resolver os nossos conflitos. Todos nós trazemos conflitos, com perguntas do tipo: "O que eu devo fazer? Com quem devo ir?" Às vezes, ficamos na árvore com os nossos conflitos e não descemos para resolvê-los.
Todos nós temos uma tristeza a ser curada, um sentimento a ser aliviado. E nós sabemos que Deus nos ajuda a sair dessa, a voltar à realidade; de alguma forma já fomos encontrados. Jesus é o caminho, a verdade a vida!
Eu sei que nós, cristãos, vivemos uma pretensão maravilhosa: ter o nosso coração semelhante ao de Jesus. Mas para isso é preciso ir ao encontro d’Ele, porque Aquele que está te olhando está pedindo para você descer da árvore. Ele promete e cumpre: quer salvar o seu coração; quer que você desça da árvore.
Quando você descer dessa árvore, fique só com Ele.
( Kairós março/2007 - Transcrição: Willieny Isaías)
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Este Evangelho que eu vou ler aconteceu no mesmo horário em que estamos agora – ao meio dia. E agora vamos ter a oportunidade de vivenciar, porque esta palavra se concretiza, hoje, na nossa vida. (São João 4).
Essa mulher foi encontrada talvez no momento em que o corpo mais precisa de um cuidado, porque o meio-dia serve para nos separar daquilo que fizemos na manhã e o que vamos fazer à tarde.
Esta manhã é simbolizada naquele que está cansado do que já viveu e o perigo de fazer da tarde uma repetição daquilo que vivemos no nosso passado.
Estou correndo um risco de passar o resto da minha vida sem ser desejado, e o mesmo eu faço com os outros. Uma vida pronta para ser condenada, pois ela tinha tudo para uma condenação escatológica, mas não é desta que estou falando, mas da histórica: "fiz da minha vida um desastre, cometi tantos erros, que eu me tornei um erro nesta vida".
A manhã foi toda errada – ela não alcançou seus objetivos. Então entra aquele por quem eu me apaixonei um dia: Jesus.
É Deus que pede um favor para uma mulher que viveu uma manhã sem esperança.
Ela está se recordando da manhã, se reconhecendo não merecedora, totalmente tomando posse da derrota. Só um olhar como de Jesus para nos fazer esquecer tudo aquilo que não deu certo.
Às vezes, tão machucados pela vida, encontramos pessoas que nos fazem esquecer a nossa amargura. Jesus olhou para aquela mulher não para condená-la, mas para uma profunda cura interior.
Profeta não é aquele nos aponta um futuro glorioso, mas que nos aponta para aquilo que precisamos renunciar, para depois assumir o futuro glorioso.E o que aquela mulher precisava fazer era só ter a capacidade de dizer: "Eu sou isso". Diante de Deus, mascaras não funcionam.
Enquanto nós fingirmos para nós mesmos, nós não iremos a lugar algum; enquanto não reconhecermos as nossas necessidades, as nossas lutas, os nossos males, enquanto não dermos nomes aos nossos inimigos e olhar nos olhos deles, ele serão maiores do que nós; enquanto a gente temer os malefícios da manhã, nós não seremos capazes de entrar na tarde com as cores de ressurreição.
Quanto mais você conhece a Deus, mais você se torna exigente.
É impossível amar o outro se antes o amor de Jesus não estiver amando em nós, não estiver nos devolvendo o tempo todo a nós mesmos. Quando a gente se ama o que na verdade estamos fazendo não é trazendo o outro para nós – isto é equivoco, isso é manhã que não deu certo. Amor de ressuscitados, amor de homens e mulheres que acreditam em Deus, não é amor que retém, é amor que devolve ele a ele mesmo.
Amor humano é devolução, é restituição. E aquele que aceita qualquer coisa, também será deixado por qualquer coisa.
Jesus é a Palavra. Aqui entra o poder redentor de Deus através do seu Filho Jesus. E o poder do olhar que restitui, faz com que aquela mulher possa descobrir as forças que antes ela não sabia que tinha e assumir que a vida não tinha dado certo.
Quantos de nós temos que passar pelo duro aprendizado de dizer "não deu certo". Por orgulho a gente mente para o outro. Jesus deu a força para aquela mulher de reconhecer: “Eu não nasci para viver essa condição de miserável eternamente”.
Eu preciso reconhecer que quem me leva para frente é o amor de Deus. Essa é a coragem de olhar para mim e reconhecer: "Não deu certo, mas ainda pode dar". Como eu disse, Deus não facilita as coisas, porque se Ele facilita Ele tira a sua parte, que só você pode realizar.
Sempre que eu ouvia esta música, a imagem que me vinha era da minha mãe, e eu fiz um esforço para não mostrar como eu estava frágil. Como é bom encontrar com olhos que nos reinaugura. Na vida de um cristão a vida está sempre recomeçando.
Na sua vida você faz a experiência de encontrar e de ser encontrado. Tantas vezes você esbarra naquele irmão que você já não vê há trinta anos, e que você já não sente mais nada. Quantas relações humanas estão falidas porque as pessoas não conseguem mais reinaugurar um ao outro.
Irmãos que há tanto tempo não se encontram, porque não têm a coragem de contar a sede que têm e o outro não sabe que você está sedento.
O mundo começa na palavra que a gente diz. Faça a experiência do silêncio e o mundo começará a partir da palavra que você vai dizer daqui a pouco.
Sempre tem um "espírito de porco" para nos lembrar o que a gente fez de errado ou daquilo que a gente não fez. E quantas vezes nós somos desumanos. Às vezes, somos especialistas em colocar os olhos somente naquilo que não deu certo em nós. Gente que assume a postura de acusador.
Muitas vezes, a pessoa está fazendo tudo errado, mas o que você não pode esquecer é que o diabo não tem o direito de dizer que você é errado, porque ele só sabe mentir. Por que você é pessoa certa, só que está no lugar errado; pessoas certas vivendo na vida errada. É igual a um diamante que está sujo de barro, mas não deixa de ser diamante.
Sabe o que mais me fascinava no padre Léo? A capacidade do padre de não olhar a prostituta, mas de ver a mulher.Comece pelos pequenos gestos, nem que seja lavando um copinho sujo de café.
Eu o desafio agora a estar sentado à beira do poço. Eu sei que você tem realidades muito concretas, nas quais você pode dizer: "Eu não fui fiel, eu não fui irmão e fui pelo caminho da prostituição. Eu corri atrás do retrocesso, ao invés de correr atrás do poço de água limpa, para por atenção na manhã que não deu certo. Confiei em estranho, ao invés de confiar naqueles que me colocaram no mundo. Permiti que muitos me jogassem no barro da indiferença, e me esqueci de quem eu era".
Ao invés de um rosto marcado pela revolta, no rosto de Jesus você encontra amor. Você pode correr para Jesus, pois a sua manhã só pode ser esquecida se você fixar o seu olhar neste rosto, neste olhar que pode te reinaugurar e tirar a placa que te dizia "falido".
Hoje, receba a placa que diz: reinaugurado por Jesus.
( Acampamento de Carnaval 2007 - Transcrição: Célia Grego )
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Tenho aprendido a ser grato a Deus pelos detalhes. São nos detalhes que descobrimos o valor da obra de arte, por isso Deus nos ensina a olhar as miudezas da vida.
Eu sou muito menos padre quando não venho aqui. Eu sou muito menos homem quando não faço programa aqui, quando não recebemos sua carta. Esse território é santo, é de mártires. Vendo o martírio dessas meninas que ficam aqui passando a noite velando para que você tenha um encontro com Deus, isso é santo, sagrado. Antes de você chegar aqui, muita gente derramou "sangue".
Quanto maior o número de defeitos que o ser humano tem, maior trabalho ele terá para correr atrás das virtudes. Deus não decepciona aquele que busca e espera por Ele.
João 5, 1-15
Quero fazer um esclarecimento. Betesda significa lugar de derramamento, casa da graça. O contexto principal desse evangelho é o poder das águas. Tudo o que você traz para seu corpo é conduzido pelo movimento das águas. A vida vai seguindo o movimento das águas. É belíssima a passagem de quando Moisés é levado pelo movimento das águas e é encontrado pela filha do faraó. Para o povo sair da escravidão, precisou o mar se abrir.
Moisés, diante da impossibilidade de vencer as águas, se volta para Deus e diz: "Você nos retira do Egito, mas não temos como ultrapassar esse mar". Diante do questionamento de Moisés, Deus diz apenas uma frase: "Diga ao povo que caminhe".
Deus não deu uma frase que garantisse o milagre, mas requereu a fé.
A expressão de Deus não é uma expressão que facilita a vida, mas que encoraja."Vou fazer vestibular e alguém compra a prova para mim. Alguém facilitou para mim". Deus não facilita, pois quem facilita corre o risco de infantilizar o facilitado e Deus não nos quer infantis na fé. Deus nos quer amadurecidos, prontos para dar o primeiro passo.
Na experiência do povo de Israel, diante de um povo que o quer matar, Deus não facilita para Moisés, mas requer sua fé. Se ficarmos parados, nós morremos. O povo queria uma reposta mágica, mas Deus dá uma ordem que encoraja, que faz crescer dentro deles a lembrança que aquele Deus que caminhou conosco não nos deixará na mão. Eu não sei como será, mas não desistimos do que esperamos.Fé é saber acreditar quando tudo está ao contrário. Homem de fé não é aquele que vê. É o que não vê e não desiste.
Parados pelo mar que os podia afogar e o um exército atrás que os poderia matar, aquele povo estava emparedado. Ser homem e mulher de fé é você viver uma única alternativa: eu não posso mais voltar.
Eu sou um homem cheio de defeitos, limites. Se retirar o que Jesus fez em mim, eu não sou nada. No momento em que não temos outra alternativa, é melhor acreditar na Palavra. Quando tudo indicava que a morte iria chegar, com os pés na água, seguindo a ordem do Senhor, o milagre aconteceu. Como nas bodas de Caná, para o milagre do vinho é necessária a água, porque teologicamente é necessário o dom de Deus e a nossa iniciativa. Não é possível viver a experiência da santidade sem movimentos das águas.
É como diz Santo Agostinho: "Deus só nos pede aquilo que Ele já nos deu. Tudo está em nós sob forma de dom".
A experiência da fé nos movimenta para sermos o que a gente é. Você não tem outro destino, a não ser a santidade, da mesma forma que o povo de Israel não tinha a não ser a libertação. Ninguém emagrece fazendo novena. Ou a gente se disciplina ou não emagrece.
Quantas vezes a gente reclama, mas não coloca o pé nas águas. Durante 38 anos aquele homem viveu reclamando por não chegar à piscina, ficou paralisado, não se esforçou, dizendo que não conseguia.
Tudo que você ingere tem duas possibilidades: pode nutrir ou intoxicar. A água é o organismo vivo que faz com que tudo aquilo que você escolheu errado possa ser jogado fora. Deus está gritando uma palavra de profecia para você.
Vida cristã é muito mais que prazer. Experiência de Deus é você não mais saber quem é você, mas saber recordar quem é Jesus em você. Há tantos de nós intoxicados pela vida, pela palavra do outro. Quantas vezes você não fez a experiência de chegar a um lugar e adoecer.
A grande artimanha do diabo é minar nossa saúde espiritual, colocar desânimo na nossa vida de oração. Há pessoas que se amarguram por não ter dado conta a vida inteira, mas não fizeram sua parte no milagre.
Se nós tivéssemos a possibilidade de analisar nosso espírito hoje, ainda veríamos que permaneceos tão secos e paralisados nos nossos medos. Quer dá força ao inimigo? Tenha medo. O teu medo te faz entregar ao inimigo. Muitas vezes, o mar da vida nos torna vítimas. Quantas pessoas são vitimas das pessoas que estão ao lado. Coração que não faz a experiência de se mergulhar no Espírito Santo sempre será vítima do inimigo.
"Eu não dou conta". Para essa frase não precisa de esforço, e cada vez que dizemos isso perdemos o movimento das águas e a chance de atravessar o mar. Tornamo-nos vítimas porque perdemos a chance de dizer: "eu não aceito". Tenha a coragem de dizer: "Esse mar não mais irá me afogar".
O que faz um homem ser de fé é a resposta que dá diante da insegurança - isso é cristianismo. Não é uma postura angelical, é uma forma de se tornar guerreiro, soldado. Coragem! Vitória é o que Deus quer celebrar na nossa vida por meio da fé.
Quando você tiver a coragem de colocar o pé na água, você já poderá sorrir porque seu inimigo tem os "pés de barro" e nas águas do Espírito Santo ele irá se afogar. A única forma de você vencer o inimigo é colocar os pés onde ele não pode estar.
( Acampamento de Carnaval 2007 - Transcrição: Willieny Isaias )
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Eu me lembro que naquela madrugada eu também engrossava a fila dos miseráveis nesse mundo, o Leo me encontrou, morávamos na mesma casa, eu tava com uma garrafa de água na mão de madrugada, ele me olhou, chegou com aquele jeitão dele assim “ué o que ta fazendo aqui meu filho uma hora dessa?”
Não precisou dizer mais nada, me agarrei no pescoço dele e chorei, chorei, chorei...
Chorei por razões que eu não sabia, por razões que eu sabia e ele entendeu tudo o que eu disse e sobretudo o que eu não disse...
Naquela madrugada Pe Léo mudou a minha vida, porque ele me acolheu de um jeito misericordioso, concreto, sem palavras e ele me ensinou na minha convivência com ele que nós como padres, como homens de Deus precisamos o tempo todo olhar a multidão porque quando menos imaginamos, ainda que essa multidão sorri, sempre existe alguém que está perdido no meio dela, sem identidade, sem saber quem é...
Sempre existe alguém que está perdido no meio da multidão, sem identidade, sem saber quem é, machucado pela droga pela prostituição, machucado pela mentira, pela desonestidade, porque essa multidão tem o poder de gritar, de iludir e quanto mais essa multidão grita, maior é a incapacidade dos que estão no meio dela de pedir socorro...
Aí nessa hora a gente precisa se utilizar da mesma linguagem que Jesus utilizou com aquela pecadora, não adiantava dizer nada, porque da mesma forma como o Leo, não adiantava dizer muita coisa para mim, naquela madrugada eu só possuía a minha dor, o meu pecado e minha pequena garrafa d’agua mineral....
Naquele momento ele me fez sair da multidão porque ele me devolveu a mim mesmo, o amor de Deus tem essa capacidade de devolver a nós mesmos...
Uma vez que a gente vive tão roubado por ai, seqüestrado por ai, o pecado tem o poder de nos seqüestrar, de nos levar para longe, para um terreno baldio, para um lugar estranho e o pior, nos fazer acostumar com o terreno baldio, com a comida estranha , com a falta de amor, a falta de afeto...
A droga tem o poder de seqüestrar essas pessoas para longe de quem as ama, a ponto delas trocarem as famílias pelos traficantes, pelas drogas...
A multidão tantas vezes gritando frases de condenação, e só o olhar de Jesus, só olhar...
Desafiar a multidão é com gestos se quiser vencê-la, pouco a pouco, um a um assim como o Gilberto (Obra de Maria) faz com que seus seguidores, que seguem a Jesus, cria uma corrente de pessoas...
Eles são especialistas em ficar no meio da multidão para descobrir os que estão perdidos, mas não só para identificá-los, para devolver a eles a capacidade de serem felizes de novo...
E o Pe Léo me ensinou que no momento que a gente esquece quem a gente é, a salvação está em a gente se recordar em quem é Deus...
Esqueceu de quem é vc? Recorde-se de quem é Deus, porque é o único jeito de sua identidade voltar...
É você olhar para quem é Deus...
Você olha e você se descobre Nele, parte integrante, irrenunciável, assim como a criatura amada não pode ser dissociada da amante, é um amor só que nos condensa, que nos traz, que nos forma como NÓS, um EU, um TU construindo uma terceira pessoa de vida própria NÓS...
Hoje é a primeira oportunidade que tenho de dizer alguma coisa sobre meu amigo que se foi, porque eu não tive a oportunidade de estar com ele, no funeral dele e digo para vocês que, se Jesus passou pela minha vida, humanamente falando o nome dele era Pe Léo...
Ele (Pe. Léo) me retirou da multidão, me devolveu a mim mesmo e o mais bonito me fez entrar na multidão e ver que... “Sou humano Demais pra compreender, humano demais pra entender...”
“Cuidado para que nossa religião não se torne apenas vaidade, um jeito social de ter compromisso...
NÃO!!! Religião só faz diferença na vida quando ela empresta um jeito diferente de enxergar o mundo...
Porque o jeito convencional, esse que vai todo mundo no mesmo ritmo, no mesmo embalo, não faz diferença...
Não engrosse a fila dos necessitados, carregue em você a consciência de que você necessita de Deus...
Mas engrosse a fila daqueles que olham a multidão para salvá-la e não para condená-la mais do que ela já está...
Porque esse é o nosso Deus...
Ele nos olha, nos prefere, mas também para que a gente possa preferir aqueles que não prestam...
Porque se por um lado você pode ficar vaidoso e tranqüilo porque Deus prefere os que não prestam, por outro lado você tem que se sentir responsável...”. Tudo bem sou miserável e tenho acolhimento o tempo todo, então não tenho o direito de ser diferente...
Eu tenho que preferir também e estar com aqueles que estão perdidos não para me perder mas para emprestar a eles a oportunidade de olhar para Aquele que eu anuncio...
Proclama a vitória de Deus na sua vida para que você possa ser vitória para aquele que está ao seu lado...
É o único jeito de viver um cristianismo que vale a pena, qualquer outra coisa é religião que não tem o poder de salvar, mas nos condena em vaidades e realidades que não são santas mesmo que nossa cara pareça ser.
O que salva, o que faz a vida valer a pena não é a nossa cara de santa NÃO! É o nosso coração convertido...isso sim!!!”
“Esse dias tem sido de muitas perdas para mim. Perdi meu amigo Robinho, Pe Leo, perdi a “Toninha” Vitória...3 perdas que me marcaram nesse fim (2006) e início de ano (2007)...
Eu fico pensando na hora que perco um amigo, no valor daqueles que ficam...
Já que é tão difícil ver ir embora, é tão difícil conjugar o verbo definitivo...
Do encontro pessoal, humano desse que estamos falando aqui, conversar, chorar, amar, perdoar... e ai a gente fica pensando nas pessoas que a gente ainda tem, não é verdade?
Eu gostaria de aproveitar a oportunidade já que estamos ao vivo para todo Brasil, e mandar um abraço para todos meus amigos, que conheço, convivo, que fazem parte da minha vida, aqueles que encontro de vez em quando, mas que fazem tão parte de mim, aqueles que nunca vi, mas que me acolhem na intimidade do Programa Direção Espiritual, aqueles que mandam cartas e nunca foram respondidos, mas que de alguma maneira deixaram sua vida nas minhas mãos...
"Canta comigo essa música que um dia fiz para minha grande amiga Adriana...”
Música: “Humano Amor de Deus”
Humano amor de Deus
Tens o dom de ver estradas
Onde eu vejo o fim
Me convences quando falas
Não é bem assim
Se me esqueço, me recordas
Se não sei, me ensinas
E se perco a direção
Vens me encontrar
Tens o dom de ouvir segredos
Mesmo se me calo
E se falo me escutas
Queres compreender
Se pela força da distância
Tu te ausentas
Pelo poder que há na saudade
Voltarás
Quando a solidão doeu em mim
Quando meu passado não passou por mim
Quando eu não soube compreender a vida
Tu vieste compreender por mim
Quando os meus olhos não podiam ver
Tua mão segura me ajudou a andar
Quando eu não tinha mais amor no peito
Teu amor me ajudou a amar
Quando o meu sonho vi desmoronar
Me trouxeste outros pra recomeçar
Quando me esqueci que era alguém na vida
Teu amor veio me relembrar
Que Deus me ama, que não estou só
Que Deus cuida de mim
Quando fala pela tua voz
Que me diz: Coragem
Que Deus me ama, que não estou só
Que Deus cuida de mim
Quando fala pela tua voz
Que me diz: Coragem
Teu amor veio me relembrar
Que Deus me ama, que não estou só
Que Deus cuida de mim
Quando fala pela tua voz
Que me diz: Coragem
Que Deus me ama, que não estou só
Que Deus cuida de mim
Quando fala pela tua voz
Que me diz: Coragem
“...e porque é humano tropeça, faz o que não queria... ao invés de amar, odeia...ao invés de perdoar, guarda rancor e erra...
Mas o grande problema da vida humana não está no erro que a gente comete, mas no tempo que a gente deixa esse erro dentro de nós...
Existem acontecimentos que já foram a tanto tempo, já se passaram tanto tempo, tantos dias, mas eles continuam acontecendo em nós, para gente ainda não finalizou, e ai você começa a perceber que você se tornou escravo de um acontecimento, que naquele momento você foi fraco, você não soube dizer não, fez a escolha errada e acabou atraindo para você a condenação que nos faz olhar no espelho e não acreditar no que vê...
O grande problema do pecado não é o tempo que dura, é o que ele faz com vc depois, o tempo que ele continua dentro de vc...
O grande poder do pecado, e ai está o grande malefício que ele traz para nossa vida, ele coloca uma inimizade entre você e você mesmo, ele tem o poder de minar a sua identidade e você perde a sua identidade, esquece quem vc é...
É como se você fosse um precioso diamante que um dia caiu no barro, e ninguém falou, ninguém contou que você é um diamante , e você passou a vida toda achando que era um cascalho...
Só porque um dia caiu no barro e sujou-se passou a acreditar na nova realidade que se instalou em sua vida, o barro...
E aos poucos se distanciou de verdade...
Você é diamante mas a vida fez você esquecer que é diamante e lhe faz acreditar numa mentira, por isso o diabo é o pai da mentira...
Porque ele sopra todos os dias nos nossos ouvidos frases não verdadeiras, assim como essa que você já escutou um dia: “vc não da conta”, “vc não presta”, “vc não vale nada”, “vc não pode”...
E é por isso que sou cada vez mais apaixonado por Jesus, porque da boca Dele...
Procura nos evangelhos e você verá! O tempo todo Jesus fazendo esquecer as realidades que o pecado deixou na vida das pessoas, recordando-as do dom precioso que elas tem dentro delas...
Isso é cristianismo, o anuncio de uma boa noticia, que nós precisamos anunciar todos os dias...
”Você tem jeito rapaz” porque mesmo que hoje você viva o esquecimento da sua condição de filho do Céu, de filho de Deus, você continua sendo!
Não é o fato de estar esquecida, a sua dignidade não pode ser tirada, é diamante, mesmo sujo... é diamante!
E se Ele é divina voz em você, ele não pode dar recados do demônio a você pode???
Ele é divina voz de Deus em mim, em você...
Ele só tem direito de dar notícias do céu a você, que se o diabo é especialista em más noticias, e as vezes a gente se torna dele legitimo representante...”esse trem não vai dar certo, “não to pondo confiança no ce não” isso é o diabo falando através de nós!!!
Agora quando a gente olha para o pior de todos e diz “Deus te ama meu amigo, você é tão especial”! Não te prendas ao passado, essas coisas que um dia não deram certo, isso passa...
Passado, o nome já diz, passou...
O que é possível na vida é agora e hoje você pode resgatar essa condição...
O que precisa ser convertido não é a voz que te fala. É o auto falante que ela se propaga...
Voz por onde Deus fala, auto falante que propaga o recado de Deus para nós - o nosso coração...
Por isso ele não pode dizer outra coisa senão, “vc vai dar certo”, “confie em você” porque Deus não se desprende de você um minuto se quer...
Não importa o que não deu certo, o que um dia foi erro, não importa o que seu passado foi...
Põe a mão no coração... ele é o auto falante!!!
É você que vai ampliar o que você quiser, você que vai fazer dar voz...
Você escolhe as frases que quer que reverbere, que continue...
Se você quiser fazer crescer a voz dos inimigos de Deus, você está derrotado...
Se você resolveu ampliar em você a voz daquele que já te escolheu, te salvou há muito tempo, então não há espaço para condenação nessa história...
Nós só podemos acreditar numa coisa, no auto falante que é meu coração, e nele Deus grita que me ama, que me ama, que me ama...”
( Pe. Fábio de Melo - Pregação no Show )
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A pessoa me disse: "Padre Fábio, você tinha tudo pra dar errado, mas não deu..."
Ela disse depois de ter me acompanhado em diversas entrevistas. Ela foi capaz de reunir as peças do quebra cabeça de minha vida e concluir o que concluiu.
Fiquei pensando no quanto ela tem razão. A vida nunca foi fácil pra mim. Nasci no limite e cresci nele. Nunca tive muitas oportunidades. Minha vida foi marcada pela pobreza, pelas dificuldades e pelo sofrimento.
Mesmo assim eu insisti que poderia ser diferente. E o que me levava adiante era a minha teimosia em sonhar sempre.
Talvez seja por isso que hoje, no exercício do meu ministério sacerdotal, eu insista tanto em levar as pessoas ao cultivo dos sonhos. Sonhos que se abracem à realidade e que se realizem aos poucos, pela força de Deus, manifestada na força dos homens...
Vejo muitas pessoas que não estão dando certo...
Vejo muitas pessoas se desprenderem de suas verdadeiras essências...
Vejo muitas pessoas cultivando verdadeiros e grandiosos jardins de infelicidades. Pessoas que morrem sem chegarem à terra prometida.
Não gostaria que fosse assim.
Fiquei sabendo que na China há um rio chamado Rio Amarelo que morre antes de chegar ao mar...
Fiquei pensando que há pessoas que insistem em fazer o mesmo.
Não permita que sua história seja semelhante à desse rio...
Lute para chegar, lute para alcançar...
Já dizia o poeta catarinense, Lindolfo Bel: "Menor que meu sonho não posso ser!"
Assim seja...
Assim façamos.
( Pe. Fábio de Melo )
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Você já deve ter experimentado isso que estou dizendo. Sobretudo no momento em que foi traído, enganado e até mesmo abandonado. O sentimento foi de revolta e, nela, o amor muda de cor, configura-se diferente. É a mesma coisa que acontece com os animais que se camuflam para sobreviverem às ameaças dos inimigos. O camaleão é sempre camaleão, mesmo que não possamos identificá-lo no seu disfarce. Da mesma forma fazemos nós.
Quando temos o nosso amor traído, ameaçado pelo descaso do outro, nós nos revestimos de ódio e ressentimentos. Mas a fonte é sempre o amor. Ele é o referencial de onde parte a nossa reação. Nem sempre temos coragem de assumir isso. A traição nos trava para a misericórdia. E, então, sentimos necessidade de devolver a ofensa com a mesma moeda.
Por isso, dizemos que odiamos. Mas só o dizemos, porque o que nos falta é coragem para dizer que amamos.
Camuflados e infelizes
Camuflar é o recurso que usamos com o objetivo de nos justificarmos diante dos outros. É uma forma que temos de nos sentir menos humilhados. Não raras vezes, dizer que temos ódio é uma maneira de tentar dar a volta por cima. Estranho isso, mas acontece.
Talvez seja por isso que as pessoas andam tão distantes dos seus verdadeiros sentimentos. Tememos a fraqueza. Tememos que o outro nos flagre no sofrimento que a gratuidade do amor nos trouxe. Preferimos assumir uma postura marcada pela agressividade a outra que nos mostrasse em nossa fragilidade.
Nos dias de hoje, cada vez mais, acentua-se a necessidade de ser forte. Mas não há uma fórmula mágica que nos faça chegar à força sem que antes tenhamos provado a fraqueza. E amar é experimentar a fraqueza. É provar o doloroso campo da necessidade, da carência e da fragilidade.
Amar é uma forma de depender, de carecer e de implorar. É uma forma de preenchimento de lacunas, visto que o amor é a melhor forma de complementar os espaços.
Admirável desconcerto
Quem ama sabe disso. Quem é amado, também. A gratuidade do amor consiste nisso. Amar quando o outro não merece ser amado. Surpresa maior não há. Ser abraçado no momento em que sabemos não merecer ser perdoados. O amor verdadeiro desconcerta. O perdão e a reconciliação são a prova disso. Somente depois de dizermos infinitas vezes "Eu te perdôo" , é que temos o direito de dizer "Eu te amo". Porque, antes do perdão, o que existe é admiração. Esse último sentimento não é o mesmo que amar. Só amamos aqueles a quem perdoamos. E, geralmente, só odiamos aos que amamos, caso contrário seríamos indiferentes.
Pena que tem sido cada vez mais difícil declarar amor no momento em que o outro não merece. Não temos coragem de tomar essa atitude, porque ela é chamada de fraqueza, coração mole. E, por medo de sermos vistos assim, camuflamos o amor com as roupas do ódio.
Perdemos a oportunidade de atualizar a gratuidade do amor de Deus na precariedade do amor humano e de surpreender o outro com nosso gesto já transformado pela graça divina.
Na sua vida, não tenha medo de ser fraco, já que a fraqueza representa capacidade de amar. Quando o outro, pelas mais diversas razões esperar pelo seu ódio, surpreenda-o com o seu amor.
Desconcerte-o e, assim, você ajudará a consertar o mundo.
( Pe. Fábio de Melo )
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Viver é plantar. É atitude de constante semeadura, de deixar cair na terra de nossa existencia as mais diversas formas de sementes.
Cada escolha, por menor que seja, é uma forma de semente que lançamos sobre o canteiro que somos. Um dia, tudo o que agora silenciosamente plantamos, ou deixamos plantar em nós,será plantação que poderá ser vista de longe...
Para cada dia, o seu empenho. A sabedoria bíblica nos confirma isso, quando nos diz que "debaixo do céu há um tempo para cada coisa!"
Hoje, neste tempo que é seu, o futuro está sendo plantado. As escolhas que você procura, os amigos que você cultiva, as leituras que você faz, os valores que você abraça, os amores que você ama, tudo será determinante para a colheita futura.
Felicidade talvez seja isso: alegria de recolher da terra que somos, frutos que sejam agradáveis aos olhos!
Infelicidade, talvez seja o contrário.
O que não podemos perder de vista é que a vida não é real fora do cultivo. Sempre é tempo de lançar sementes... Sempre é tempo de recolher frutos. Tudo ao mesmo tempo. Sementes de ontem, frutos de hoje, Sementes de hoje, frutos de amanhã!
Por isso, não perca de vista o que você anda escolhendo para deixar cair na sua terra. Cuidado com os semeadores que não lhe amam. Eles têm o poder de estragar o resultado de muitas coisas.
Cuidado com os semeadores que você não conhece. Há muita maldade escondida em sorrisos sedutores...
Cuidado com aqueles que deixam cair qualquer coisa sobre você, afinal, você merece muito mais que qualquer coisa.
Cuidado com os amores passageiros... eles costumam deixar marcas dolorosas que não passam...
Cuidado com os invasores do seu corpo... eles não costumam voltar para ajudar a consertar a desordem...
Cuidado com os olhares de quem não sabe lhe amar... eles costumam lhe fazer esquecer que você vale à pena...
Cuidado com as palavras mentirosas que esparramam por aí... elas costumam estragar o nosso referencial da verdade...
Cuidado com as vozes que insistem em lhe recordar os seus defeitos... elas costumam prejudicar a sua visão sobre si mesmo.
Não tenha medo de se olhar no espelho. É nessa cara safada que você tem, que Deus resolveu expressar mais uma vez, o amor que Ele tem pelo mundo.
Não desanime de você, ainda que a colheita de hoje não seja muito feliz.
Não coloque um ponto final nas suas esperanças. Ainda há muito o que fazer, ainda há muito o que plantar, e o que amar nessa vida.
Ao invés de ficar parado no que você fez de errado, olhe para frente, e veja o que ainda pode ser feito...
A vida ainda não terminou. E já dizia o poeta "que os sonhos não envelhecem..."
Vai em frente. Sorriso no rosto e firmeza nas decisões.
Deus resolveu reformar o mundo, e escolheu o seu coração para iniciar a reforma.
Isso prova que Ele ainda acredita em você. E se Ele ainda acredita, quem sou eu pra duvidar... (?)
( Pe. Fábio de Melo )
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Quero que minha árvore seja feita de silêncios. Silêncios que façam intuir felicidade, contentamento, sorrisos sinceros.
Neste Natal não quero mandar cartões. Tenho medo de frases prontas. Elas representam obrigação sendo cumprida. Prefiro a gratuidade do gesto, o improviso do texto, o erro de grafia e o acerto do sentimento. A vida é mais bonita no improviso, no encontro inesperado, quando os olhares se cruzam e se encontram.
Quero que minha árvore seja feita de realidades. Neste Natal quero descansar de meus inúmeros planos. Quero a simplicidade que me faça voltar às minhas origens. Não quero muitas luzes. Quero apenas o direito de encontrar o caminho do presépio para que eu não perca o menino Jesus de vista. Tenho medo de que as árvores muito iluminadas me façam esquecer o dono da festa.
Não quero Papai Noel por perto. Aliás acho essa figura totalmente dispensável! Pode ficar no Polo Norte desfrutando do seu inverno. Suas roupas vermelhas e suas barbas longas não combinam com o calor que enfrentamos nessa época do ano. Prefiro a presença dos pastores com seus presentes sinceros.
Papai Noel faz muito barulho quando chega. Ele acorda o menino Jesus, o faz chorar assustado. Os pastores não. Eles chegam silenciosos. São discretos e não incomodam...
Os presentes que trazem nos recordam a divindade do menino que nasceu. São presentes que nos reúnem em torno de uma felicidade única. O ouro que brilha, o incenso que perfuma o ambiente e a mirra com suas composições miraculosas.
O papai Noel chega derrubando tudo. Suas renas indisciplinadas dispersam as crianças, reiram a paz dos adultos. Os brinquedos tão espalhafatosos retiram a tranquilidade da noite que deveria ser silenciosa e feliz. O grande problema é que não sabemos que a felicidade mais fecunda é aquela que acontece no silêncio.
É por isso que neste Natal eu não quero muita coisa. Quero apenas o direito de recolher o pequenino menino na mangedoura... Quero acolhê-lo nos braços, cantar-lhe canções de ninar, afagar-lhe os caboelos, apertar-lhe as bochechas, trocar-lhe as fraldas para que não tenha assaduras e dizer nos seus ouvidos que ele é a razão que me faz acreditar que a noite poderá ser verdadeiramente feliz.
Neste Natal eu não quero muito. Quero apenas dividir com Maria os cuidados com o pequeno menino. Quero cuidar dele por ela. Enquanto eu cuido dele ela pode descansar um pouquinho ao lado de José. Ando desfrutando nos últimos dias o desejo mais intenso de que a vida vença a morte.
Talvez seja por isso que ando desejando uma árvore invisível. O único jeito que temos de vencer a morte é descobrindo a vida nos pequenos espaços. Assim vamos fazendo a substituição. Onde existe o desespero da morte eu coloco o sorriso da vida.
Faça o mesmo!
Descubra a beleza que as dispersões deste tempo insistem em esconder. Fecha a sua chaminé. Visita que verdadeiramente vale à pena chega é pela porta da frente.
Na noite de Natal fuja dos tumultos e dos barulhos. Descubra a felicidade silenciosa. Ela é discreta, mas existe! Eu lhe garanto!
Não tenha a ilusão de que seu Natal será triste porque será pobre. Há mais beleza na pobreza verdadeira e assumida que na riqueza disfarçada e incoerente. O que alegra um coração humano é tão pouco que parece ser quase nada. Ouse dar o quase nada. Não dá trabalho, nem custa muito...
E não se surpreenda, se com isso, a sua noite de Natal tornar-se inesquecível.
( Pe. Fábio de Melo, scj. )
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O artista tem o seu caminho. Não somos melhores, somos diferentes. A Igreja precisa descobrir como tocar o coração do artista, porque tem um jeito diferente de ser e precisar ser cuidado. O romântico, por exemplo, tem o risco de passar a vida sem viver porque sonha tanto que deixa a vida passar.
Você já viu quando a inveja toma conta de nós e achamos que o outro é melhor? É um risco que o artista tem e o leva a cair. Ele precisa tomar posse daquilo que é, porque se não se vive isso, não é vida.
Ser pessoa é dispor-se de si e depois dispor-se para o outro. Só pode ser disponível quem se dispõe de si.
Conversão é tomar posse daquilo que se é. Por isso, Deus não pode trabalhar com uma pessoa mascarada, que não se aceita. Ser pessoa é antes de tudo ter concieência: ¿Eu sei quem sou eu. Tenho diante de mim minhas dificuldades, mas eu me aceito!'
Não existe cristão que não se aceita do jeito que se é. Você é o que você é, e a sua conversão passará por aquilo que você é!
Eu tomo posse daquilo que sou.
Jesus quando viu Maria Madalena, Ele fez com que a aquela mulher voltasse a ver aquilo que ela era, não uma prostituta, mas uma filha de Deus projetada por Ele, e não aquilo que a sociedade criou.
Nós caímos muito nos artifícios que nos são apresentados. Nossa vida se ilumina por novidades e gostamos muito do estético, e seguimos aquilo que é diferença, não somos fã da disciplina.
Corremos atrás de coisas e duas semanas depois vemos que realmente aquilo não é tão bom como parecia.
Por que os artistas não 'duram' muito nos casamentos? É por causa disso. Querem respostas rápidas, românticas, buscam o brilho eterno e acabam desanimando. Então, o outro começa a decidir por nós e ficamos perdidos. Muitas pessoas, ora dão um testemunho que acredita em Deus, e passado um tempo depois, já dizem acreditar em Buda, depois Maomé, na energia... Não ficam presos em nada.
Cuidado em seguir somente as vaidades, esse negócio de usar uma blusa com uma imagem cristã ou uma cruz, mas tudo por vaidade. Sim, nós artistas somos vaidosos, mas não podemos ser levados pela vaidade. Não invente um personagem, seja aquilo que você é. Seja autêntico, assim você provoca autenticidade nas pessoas a seu redor.
Eu só posso ser padre na verdade, não posso pedir para que as pessoas finjam para que assim eu goste delas.
Entre o que os outros imaginam e o que Deus fez eu prefiro ser o que Deus fez. Deus não vem plantar a sua floresta mas Ele te dá uma semente e você que vai plantar. Procure ser aquilo que Deus te fez. Se você está correndo atrás de porcaria cuidado para não acabar deixando de ser aquilo que Deus fez. Não corra atrás de porcaria, isso é a maior arte. A arte de ser aquilo que nós somos requer arte.
Não sou perfeito, mas estou correndo atrás daquilo que sou.
Deus acontece plenamente no coração quando nós permitimos ser aquilo que nós somos. A nossa divindade só acontece na participação.
Deus é tudo para mim! Retire-me o Evangelho e eu não sei mais para onde olhar. Se tira-me da mira de tudo aquilo que eu considero santo e sagrado, eu passo a não conhecer mais minha própria identidade. Isso é humano e divino. Apaixone-se por você. Não seja aquilo que dizem que você é. Parece estranho, mas não podemos dar aquilo que não temos.
Se você não descobrir que você é sagrado, você não vai perceber a sacralidade que o outro é!
Ou você vive no amor por você ou você não sabe o que é o amor de Deus. Quem não se ama não sabe amar ninguém. É uma pessoa ausente de si mesmo.
Tem pessoas que vemos que não tem amor próprio, e você não tem o direito de perder esse amor.
O homem e a mulher que se ama o diabo não tem vez. Quem se ama não traz vícios para si mesmo porque se ama!
Por que me drogar? Eu me amo não caio nisso! Não é possível uma pessoa se amar e se destruir.
Tome posse do que você é para depois dar-se ao outro. Seja o que você é mesmo que pareça feio, ¿nós damos um banho na lama e vai sobrar um diamante lindo¿.
Que o seu teatro desperte verdade, a verdade daquilo que nós somos que nos prenda a Deus, porque só quem é preso em Deus é livre no mundo, e é isso que eu gostaria que você fosse.
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Uma tela pode ser agradável aos olhos, uma tela pode não ser agradável aos olhos, tudo depende da escolha das cores, dos traços que a gente permite...
E a vida é assim, nós não pintamos a tela sozinhos. Cada pessoa que você permite que entre na sua vida, trará um detalhe para a pintura que é a sua vida...
Cada pessoa que você permite que entre, que fale uma palavra, que diga alguma coisa que você acredita...
As pessoas que já passaram, os borrões, os borrões de "tinta" que deixaram...
Ou a gente vai cuidadosamente restaurando, retirando aquilo que foi colocado sem nenhum respeito, sem nenhuma consideração por aquilo que você era...
os borrões que expressam o "não amor", o momento em que você foi usado, o momento em que o outro não respeitou a sua sacralidade, que o outro lhe banalizou como se você fosse uma praça pública, que o outro lhe considerou um objeto...
São as pinturas...são as pinturas que Deus vai permitindo que seja colocadas em nós...
Mas, o bom é saber que dá tempo, a tela está aí, ela não está definitivamente pronta...
Embora muitas coisão não possam ser mudadas, muitas outras poderão ser acrescentadas...
E se existem defeitos que não podem ser mudados, então a gente acrescenta com virtudes para que a gente não coloque tanta atenção nos defeitos...
Não é assim? Quando a gente tem um defeito no corpo que a gente não gosta o que é que a gente faz? A gente destrai o defeito, a gente chama atenção para aquilo que a gente tem de mais bonito...
Na aquarela da sua vida, antes que ela descolora, você tem a obrigação de colocar as melhores cores...luzes...sombras...
Pessoas que vão passando...Pessoas que vão ficando...Pessoas que nunca mais voltarão...
É a sua vida...
Não tinha aquele programa... "Essa é a sua vida"...
Essa é a sua vida, essa é a sua tela...
E agora José? A festa acabou...
Já dizia Drummond...E agora você, o que é que você está fazendo com tudo isso que Deus lhe deu?
Quais são as cores que você está permitindo que sejam colocadas na tela?
Não permita que os borrões prevaleçam...porque os borrões a gente pode tirar, é excesso...
...tire os excessos! É mais fácil você retirar os excessos hoje, do que você conviver com esse peso o resto da vida...
Quanto mais cedo a gente resolve os nossos problemas...os nossos traumas...
Melhor será a nossa velhice, pra você ter que se aguentar depois...
Porque você é o seu maior companheiro...não adianta! Esta é a sua vida, esta é a sua tela e você hoje está escolhendo as cores que vai colocar nela...
E descolorirá...lálálá
As pessoas entram dentro de nós, através das palavras...através de olhares...
A gente acredita nos olhares...a gente acredita no que nos foi dito...
E no momento em que a palavra é interpretada por mim, eu internalizo aquela pessoa, a palavra vem pra dentro de mim, a pessoa vem pra dentro de mim e isso é permitir que o outro coloque detalhes na minha tela...
Você tá pintando, e você está permitindo que outras pessoas coloquem detalhes nesta tela. Isso é definitivo.
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Esquecer é uma forma de aprender. Parece estranho, mas é verdade. Sempre que me esforço para esquecer alguma coisa, de alguma forma eu me exercito nos horizontes do aprendizado.
Esquecer faz bem. É uma forma de abrir espaços para as novidades que ainda estão por chegar em nossas vidas. Já pensou se ainda estivéssemos parados nas primeiras lições da escola?
De alguma forma elas caíram no esquecimento, mas estão na síntese de tudo o que aprendemos pela vida a fora. Aprendizados são alicerces que se perdem da memória, mas não fogem de nós. O esquecimento se encarrega de resguardar o essencial... preserva a memória do cansaço que gera o constante lembrar... mas guarda para quando for necessário.
É bom esquecer o que não foi bom, o que doeu, o que fez sofrer, mas vez ou outra a memória resgata a informação esquecida e a transmuda em aprendizado que vale à pena. A dor, distante da hora em que doeu, torna-se uma tradução bonita do que chamamos maturidade.
Hoje eu quero esquecer o que não foi bom, e um recurso que me auxilia nesta tarefa é relembrar alegrias passadas.
Dois pensamentos não podem ocupar o mesmo lugar na mente. É só uma questão de escolha...
Hoje, neste momento em que a vida me parece difícil eu quero é me prender nos olhos de Jesus, que sorrindo, vive a repetir que me ama...
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O amor resiste à distância, ao silêncio das separações e até às traições. Sem perdão não há amor. Diga-me quem você mais perdoou na vida, e eu então saberei dizer quem você mais amou.
O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão. Você o percebe no momento em que o outro fez tudo errado, e mesmo assim você olha nos olhos dele e diz: "Mesmo fazendo tudo errado eu não sei viver sem você. Eu não posso ser nem a metade do que sou se você não estiver por perto."
O amor nos possibilita enxergar lugares do nosso coração que sozinhos jamais poderíamos enxergar.
O poeta soube traduzir bem quando disse: "Se eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse os sonhos dentro de mim e vivesse na escuridão. Se eu não te amasse tanto assim talvez não visse flores por onde eu vi, dentro do meu coração!"
Bonito isso. Enxergar sonhos que antes eu não saberia ver sozinho. Enxergar só porque o outro me emprestou os olhos , socorreu-me em minha cegueira. Eu possuia e não sabia. O outro me apontou, me deu a chave, me entregou a senha.
Coisas que Jesus fazia o tempo todo. Apontava jardins secretos em aparentes desertos.
Na aridez do coração de Madalena, Jesus encontrou orquídeas preciosas. Fez vê-las e chamou a atenção para a necessidade de cultivá-las.
Fico pensando que evangelizar talvez seja isso: descobrir jardins em lugares que consideramos impróprios.
Os jardineiros sabem disso. Amam as flores e por isso cuidam de cada detalhe, porque sabem que não há amor fora da experiência do cuidado. A cada dia, o jardineiro perdoa as suas roseiras. Sabe identificar que a ausência de flores não significa a morte absoluta, mas o repouso do preparo. Quem não souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois...
Precisamos aprender isso. Olhar para aquele que nos magoou, e descobrir que as roseiras não dão flores fora do tempo, nem tampouco fora do cultivo.
Se não há flores, talvez seja porque ainda não tenha chegado a hora de florir. Cada roseira tem seu estatuto, suas regras...
Se não há flores, talvez seja porque até então ninguém tenha dado a atenção necessária para o cultivo daquela roseira.
A vida requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só. Elas não sabem viver sozinhas...
Quem quiser levar a rosa para sua vida, terá que saber que com ela vão inúmeros espinhos.
Mas não se preocupe. A beleza da roza vale o incômodo dos espinhos... ou não.
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Hoje eu não sei dizer. Só sei sentir. Há dias em que as palavras não são capazes de traduzir o sentimento. E por isso a solidão se instaura.
A sensação de estar só é a mesma de não saber dizer.
Talvez seja por isso que só as pessoas que verdadeiramente se amam são capazes de suportar o silêncio...
Ficar calado é uma forma de dizer sem conceituar. Os conceitos são formulações fáceis, o silêncio não. Descobrir o que o silêncio diz requer mestria, observação minuciosa.
É bom não saber dizer...
Bom mesmo é ser compreendido, mesmo quando não sabemos dizer...
Amar é uma forma de crer em silêncio!
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Amar é descobrir os avessos. É olhar o outro lado, o nunca visto, o não investigado.
Amar é exercício de investigação, de constante e atenta observância.
Só o observar silencioso da existência nos capacita para uma formulação de palavras...
Só pode dizer alguma coisa sobre uma pessoa, aquele que soube demorar, que soube ficar, permanecer, vigiar, descobrir. As palavras reveladoras só nascem depois da observação silenciosa.
Uma mulher não se sente amada no momento em que o homem a proporciona uma noite de amor, apenas...
Mas sobretudo no momento em que se sentam à mesa de um restaurante, e sem que ela diga nada ele lhe pede o prato favorito.
Amar é descobrir os gostos, os sabores particulares, os desejos mais ocultos.
Amar é saber a cor favorita, o número que calça os pés, o que causa medo e o que encoraja.
Hoje fiquei pensando...
Meu pai morreu sem que eu soubesse qual era sua cor favorita...
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A beleza de cada dia só existe porque não é duradoura. Tudo o que é belo não pode ser aprisionado, porque aprisionar a beleza é uma forma de desintegrar a sua essência. Dizem que havia uma menina que se maravilhava todas as manhãs com a presença de um pássaro encantado. Ele pousava em sua janela e a presenteava com um canto que não durava mais que cinco minutos. A beleza era tão intensa que o canto a alimentava pelo resto do dia. Certa vez, ela resolveu armar uma armadilha para o pássaro encantado. Quando ele chegou, ela o capturou e o deixou preso na gaiola para que pudesse ouvir por mais tempo o seu canto.
O grande problema é que a gaiola o entristeceu, e triste, deixou de cantar. Foi então que a menina descobriu que, o canto do pássaro só existia, porque ele era livre. O encanto estava justamente no fato de não o possuir. Livre, ele conseguia derramar na janela do quarto, a parcela de encanto que seria necessário, para que a menina pudesse suportar a vida. O encanto alivia a existência...
Aprisionado, ela o possuia, mas não recebia dele o que ela considerava ser a sua maior riqueza: o canto!
Fico pensando que nem sempre sabemos recolher só encanto... Por vezes, insistimos em capturar o encantador, e então o matamos de tristeza.
Amar talvez seja isso: Ficar ao lado, mas sem possuir. Viver também.
Precisamos descobrir, que há um encanto nosso de cada dia que só poderá ser descoberto, à medida em que nos empenharmos em não reter a vida.
Viver é exercício de desprendimento. É aventura de deixar que o tempo leve o que é dele, e que fique só o necessário para continuarmos as novas descobertas.
Há uma beleza escondida nas passagens... Vida antiga que se desdobra em novidades. Coisas velhas que se revestem de frescor. Basta que retiremos os obstáculos da passagem. Deixar a vida seguir. Não há tristeza que mereça ser eterna. Nem felicidade.
Talvez seja por isso que o verbo dividir nos ajude tanto no momento em que precisamos entender o sentimento da tristeza e da alegria. Eles só são suportáveis à medida em que os dividimos...
E enquanto dividimos, eles passam, assim como tudo precisa passar.
Não se prenda ao acontecimento que agora parece ser definitivo. O tempo está passando... Uma redenção está sendo nutrida nessa hora...
Abra os olhos. Há encantos escondidos por toda parte. Presta atenção. São miúdos, mas constantes. Olhe para a janela de sua vida e perceba o pássaro encantado na sua história. Escute o que ele canta, mas não caia na tentação de querê-lo o tempo todo só pra você. Ele só é encantado porque você não o possui.
E nisto consiste a beleza desse instante: o tempo está passando, mas o encanto que você pode recolher será o suficiente para esperar até amanhã, quando o passaro encantado, quando você menos imaginar, voltar a pousar na sua janela.
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Tem gente que gosta de fazer a vida alheia a pauta principal de seus assuntos. Tem solução para todos os problemas da humanidade, menos para os seus. Dá conselhos, propõe soluções, articula, multiplica, subtrai, faz de tudo para que o outro faça o que ele quer.
Só dê ouvidos a quem te ama, repito. Cuidado com as acusações de quem não te conhece. Não coloque sua atenção em frases que te acusam injustamente. Há muitos que vão feridos pela vida porque não souberam esquecer os insultos maldosos. Prenderam a atenção nas palavras agressivas e acreditaram no conteúdo mentiroso delas.
Há muitos que carregam o fardo permanente da irrealização porque não se tornaram capazes de esquecer a palavra maldita, o insulto agressor. Por isso repito: só dê ouvidos a quem te ama. Não se ocupe demais com as opiniões de pessoas estranhas. Só a cumplicidade e conhecimento mútuo pode autorizar alguém a dizer alguma coisa a respeito do outro.
Ando pensando no poder das palavras. Há palavras que bendizem, outras que maldizem. Descubro cada vez mais que Jesus era especialista em palavras benditas. Quero ser também. Além de bendizer com a palavra, Ele também era capaz de fazer esquecer a palavra que amaldiçoou. Evangelizar consiste em fazer o outro esquecer o que nele não presta, e que a palavra maldita insiste em lembrar.
Quero viver para fazer esquecer...
Queira também.
Nem sempre eu consigo, mas eu não desisto.
Não desista também.
Há mais beleza em construir que destruir.
Repito: só dê ouvidos a quem te ama. Tudo mais é palavra perdida, sem alvo e sem motivo santo. Só mais uma coisa. Não te preocupes tanto com o que acham de ti.
Quem geralmente acha não achou nem sabe ver a beleza dos avessos que nem sempre tu revelas. O que te salva não é o que os outros andam achando... mas é o que Deus sabe a teu respeito.
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A praça principal, o coreto da matriz, as ruas estreitas com suas casas antigas e os lugares ermos onde ainda sobrevivem goiabeiras tão cheias de infância. Minha vida é meu leme neste oceano tão cheio de portos e partidas.
Fico pensando nos que passam por mim. Os que visitam a minha cidade interior. Não sei por onde entram. Se pelo pórtico principal, ou pelo cemitério. Não sei. O que sei é que nesse constante ir e vir, o rosto anônimo insiste em permanecer vivo na retina de minhas saudades. A senhora idosa, espremida na multidão, sorriso envelhecido, mas tão cheio de uma força misteriosa, repete a melodia de minhas palavras, canta comigo em público o que um dia foi só meu. Ela me vê de longe, e eu a vejo tão perto. O rapaz tímido, máquina fotográfica nas mãos, querendo pedir o pedido mais simples, o mais corriqueiro, mas que para ele é exercício grandioso de acertar o Davi interior e vencer o Golias do medo. Posso tirar uma foto com você, padre? A frase sai, o medo não.
A vida de alguém que um dia lhe acompanhou uma dor solitária, agora ali, registrada na fotografia que ele guardará com carinho. Eu também gostaria de tirar uma foto com tanta gente! Pessoas que escrevem aqui, e que nunca vi o rosto. Pessoas que deixam recados, insistem em acenar um lenço branco de paz, desejosas de que um dia a gente pudesse passar horas e horas falando de como nascem as músicas e de como é doído ser gente nos dias de hoje. Gente que me receberia na cozinha de sua casa e que repartiria comigo a intimidade de sua vida familiar. Pessoas que eu amaria com profundidade, que eu seria capaz de dar a minha vida por elas, mas que eu não tenho tempo para conhecer...
Ó vida que não tem conserto! Quanta pressa há nesses intervalos entre chegadas e partidas! Quantos bilhetes aéreos voados, quantas passagens de ônibus cumpridas, acumuladas num lugar da minha cidade que não sei onde fica. Vida perdida nas entrelinhas das palavras, do olhar distante que me olha querendo chegar, do coração que deseja despejar os pecados nas minhas mãos para que eu os devolva revestidos da luz que só a misericórdia de Deus possui.
Quantos olhares perdidos, querendo conselhos, direção espiritual. Quantos braços querendo abraço, e que eu, pelo limite do corpo não alcanço. Emails deixados na caixa, a esperança de respondê-los, pedidos de socorro, turistas querendo visitar minha cidade. Alguns retirando as sandálias dos pés porque acreditam na sacralidade do meu solo, enquanto outros desejam apenas sujar minhas praças. Não há muros na minha cidade. Apenas peço ajuda aos que me amam de verdade. Velem comigo, velem por mim. Sou um prefeito ausente...
Os poetas não são bons administradores. Precisam de mil assessores. Cidade de poeta corre o risco de ser um caos. É por isso que quero ser um poeta possuído pelo céu. Quero a audácia de poder dizer que sou seu, sem que isso venha ferir minha castidade. Quero ser do povo, quero ser de Deus. Quero misturar meu sangue no sangue dos inocentes, mas não quero temer tocar no sangue dos culpados.
Eu quero a vida. A mais miúda, a de toda hora. A vida de cada instante. O instante de cada vida. Eu quero o sopro em dias quentes. Eu quero o riso sem alarde. Eu quero a minha cidade de portas abertas. Venha de onde vier, mas venha. Há sempre um quarto preparado para quem não tem onde dormir. Há sempre uma mesa posta, ainda que na madrugada. Venha de onde vier, mas venha. Minha cidade não tem muros, não tem portas. Venha quando quiser, venha quando precisar, porque num coração de padre, quem manda é o povo!
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Não há ser humano sem luta. Cada um sofre o seu tanto para ser o que é. O sangue derramado, fruto do amor à causa a que se dedica é a prova de que a luta aconteceu. Sangue é metáfora do sacrifício.
Dizem que o Sagrado é a realidade que foi separada para ser ofertada sobre o altar preparado. Acho bonito pensar assim.
Sacralizar é o mesmo que resguardar realidades particulares e públicas, zelando para que não corram o risco da banalização que profana e esvazia o significado.
Hoje a palavra é breve, mas o significado não. Espero que dilate no coração de quem precisa ouvir: "Sou padre, sou sagrado e sou feliz por ser." Não me penso vivendo outra realidade, nem tampouco sendo outra coisa. Quem quiser se aproximar, que se aproxime, mas não venha para desrespeitar o Amor que me faz amar.
É só isso.
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A felicidade é um susto. Chega na calada da noite, na fala do dia, no improviso das horas. Chega sem chegar, insinua mais que propõe...
Felicidade é animal arisco. Tem que ser adimirada à distância porque não aceita a jaula que preparamos para ela. Vê-la solta e livre no campo, correndo com sua velocidade tão elegante é uma sublime forma de possuí-la.
Felicidade é chuva que cai na madrugada, quando dormimos. O que vemos é a terra agradecida, pronta para fecundar o que nela está sepultado, aguardando a hora da ressurreição.
Felicidade é coisa que não tem nome. É silêncio que perpassa os dias tornando-os mais belos e falantes. Felicidade é carinho de mãe em situação de desespero. É olhar de amigo em horas de abandono. É fala calmante em instantes de desconsolo.
Felicidade é palavra pouca que diz muito. É frase dita na hora certa e que vale por livros inteiros.
Eu busco a frase de cada dia, o poema que me espera na esquina, o recado de Deus escrito na minha geladeira... Eu vivo assim... Sem doma, sem dona, sem porteiras, porque a felicidade é meu destino de honra, meu brasão e minha bandeira. Eu quero a felicidade de toda hora. Não quero o rancor, não quero o alarde dos artifícios das palavras comuns, nem tampouco o amor que deseja aprisionar meu sonho em suas gaiolas tão mesquinhas.
O que quero é o olhar de Jesus refletido no olhar de quem amo. Isso sim é felicidade sem medidas. O café quente na tarde fria, a conversa tão cheia de humor, o choro vez em quando.
Felicidades pequenas... O olhar da criança que me acompanha do colo da mãe, e que depois, à distância ,sorri segura, porque sabe que eu não a levarei de seu lugar preferido.
A felicidade é coisa sem jeito, mas com ela eu me ajeito. Não forço para que seja como quero, apenas acolho sua chegada, quando menos espero.
E então sorrio, como quem sabe,que quando ela chega, o melhor é não dispersar as forças... E aí sou feliz por inteiro na pequena parte que me cabe. excluir
O que hoje você tem diante dos olhos? Merece um sorriso? Não pense duas vezes...
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Não é fácil. É sabedoria que requer aprendizado! Eu quero aprender.
O descompasso é a causa de todo cansaço. O corpo é rápido, mas o coração não. O corpo anda no compasso da agenda. O coração anda é no compasso do amor miúdo. O corpo sobrevive de andares largos. O coração sobrevive de pequenos passos e de demoras. Eu já fui e voltei a inúmeros lugares e o coração nem saiu do lugar.
O mistério é saber reconciliar as partes. Conciliar um ritmo que seja bom para os dois.
Eu quero aprender. Não quero o martírio antes da hora. Quero é o direito de saborear o tempo como se fosse um menino que perdeu a pressa. O show? Ah, deixa pra depois. A voz não morrerá. Acendemos as luzes noutra hora. Deixe que o padre viva a penumbra de algumas poucas velas...
Um padre combina mais com uma vela acesa que com um canhão de luz.
Há momentos em que a luz miúda nos revela muito mais que mil holofotes.
Chega de vida complicada. Eu preciso é de simplicidade!
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A cada dia uma nova notícia me entrego. Eu me dou em partes, como se devolvesse o que já sou, Àquele que me deu totalmente. Vivo pra desvendar. Esquinas; tardes caídas; manhãs que se levantam com o sol. Ando amando mais. Meus amigos são tantos; meus limites também. Cada vez mais padre, mais feliz. Eu sou sem medo de errar. Eu desejo a sacralidade de cada dia.
Deitar no chão da existência é tão necessário. Eu me levanto mais devolvido, porque há muitas partes de mim esparramadas, caídas pelas esquinas da vida. Recolher-me é obra que faço por Deus. Estou em reformas. Deus o sabe. Ele é que tirou a primeira pedra. Tirou. Não atirou. Deus não sabe atirar. Prefere tirar. Eu deixo. Sou Dele.
Quero ser sempre mais. Em partes, pra ser todo. Ele me devolve a cada dia. Eu também. Lição de casa que faço com gosto. Vez ou outra Ele me olha nos olhos e me dita poemas. Fico tão encantado que até esqueço as palavras. Ele manda eu prestar atenção. Digo que não sei. Ele ri de mim. "Poetas são todos iguais" - conclui enquanto mexe no meu cabelo. Eu o vejo de perto, bem de perto. Por vezes sinto o desejo de lhe pedir o impossível, mas aí me falta coragem. Aí peço que me dê só o necessário. Ele me surpreende com medidas que não mereço. Fico mudo, sem saber dizer. Ele me socorre com seu sorriso. E de súbito, as palavras voltam a fazer parte de mim.
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